“Abundância” – Maria João de regresso às origens

Há precisamente quarenta e dois anos, em 1983, estava a entrar no estúdio, para gravarmos o seu primeiro disco, “Quinteto de Maria João”. O primeiro disco de jazz cantado, gravado em Portugal. Com os conceituados músicos: Carlos Martins, Mário Laginha e Kakum.
Entre tantos concertos que realizámos, houve um que me ficou na mente, o primeiro festival de jazz português, em Coimbra, com a supervisão de Luis Vilas Boas (o pai do jazz em Portugal). Ontem, dia 19 de junho de 2025, desloquei-me à Fnac do Norte Shopping e assisti à apresentação do seu recente trabalho “Abundância”, com um arranjo gráfico lindíssimo do seu filho João, a capa e o anterior de um extremo bom gosto. Hoje, dia 20, a apresentação será na Fnac Gaia pelas 18h30. Um vinil e um CD que saiu para o público em abril e que realiza o seu regresso a Moçambique.
Maria apresentou-se com o seu companheiro de vida, João Farinha no teclado e samplers. E desde o início que fomos arrebatados pela sua voz única, o gesto, o sopro, o sussurro, a sua forte presença em palco, não apenas pela sua indumentária, sempre escolhida com extremo cuidado e bom gosto, pela sua gesticulação sempre presente e envolvente. E, envolventes são as vozes do coro TP50 em que harmonizam Xixel Langa, Xizimba, Leticia Deozina, Nadya Cosmo e Onésia Muholove. Com a colaboração de novos e recorrentes músicos – dos bateristas Silvan Strauss e Texito Langa ao guitarrista Valter Mabas ou ao
percussionista Cheny Wa Gune.
As lendas de Moçambique Mucavele e Stewart Sukuma, também juntam as suas vozes à da cantora portuguesa. Curiosamente, gravei o disco de Mucavele, com produção de Moz Carrapa. João Farinha e André Nascimento, fundadores do projeto OGRE, e dos vários discos que gravaram desde 2012, onde destacamos o muito aplaudido e muito bem aceite pela crítica especializada, “Songs For Shakespeare”, de 2022.
Coube ao músico e produtor português Luís Fernandes, um reconhecido artista na área das vanguardas eletrónicas, o papel de assinar a produção de um trabalho que implicou viagens entre Portugal e Moçambique e pontes musicais entre o passado e o futuro, o jazz e a world music.
Maria João é um “tesouro”, uma artista reconhecida e aplaudida globalmente que, no entanto, nunca deixou de se mostrar irrequieta de um ponto de vista criativo, mostrando-se permanentemente disposta a arriscar novas aventuras, a buscar novas soluções, a apresentar novos projetos. “O futuro é sempre o melhor lugar”, acredita a cantora que ao longo das décadas foi voz activa em diversas e frutuosas parcerias, de Mário Laginha, Carlos Bica e Aki Takase.
Com dez novos temas, incluindo o single “Ao Sol”, este novo registo de Maria João, “Abundância”, apresenta uma original visão musical em que a sua voz singular e apaixonante ocupa o centro, afirmando-se uma vez mais como uma inigualável força expressiva, capaz das mais fundas emoções. “Esperança”, “African Foxtrot”, “O Amor é Verdadeiro”, “Beatriz”, “Dário”, “As Tuas Tranças”, tema em que participa Mucavele, que também assina a música, “Papalaty”, de Sukuma, “Dia” e “Praia” completam o alinhamento de um trabalho que é uma prova de vida, de engenho e de regresso às suas origens.
Sem dúvida, uma das mais desafiantes e marcantes vozes da atualidade. A cantora Maria João celebra quarenta anos de carreira e colaborou com músicos como Aki Takase, Joe Zawinul, Trilok Gurtu, Bobby McFerrin ou António Pinho Vargas, foi recentemente distinguida com o Prémio “Mérito” nos Prémios “RTP/Festa do Jazz” e continua e espalhar talento em vários projetos de música original: em 2023 editou o excelente disco “Golse to You” num quarteto co-liderado com o contrabaixista Carlos Bica; no ano passado editou o álbum “Algodão”, em parceria com o brasileiro André Mehmari; já este ano vimo-la num regresso ao seu duo com Mário Laginha, numa atuação emcionante no novo Festival Internacional de Jazz de Oeiras.
Este trabalho, o seu trigésimo primeiro álbum, foi gravado em Maputo, onde as influências africanas se cruzam, com as sonoridades eletrónicas, muito bem exploradas e transmitem uma sonoridade muito natural. Entre as faixas, destaco: “Esperança”, baseada num poema do escritor moçambicano e Prémio Camões, José Craveirinha, musicado por Maria João e João Farinha. O alinhamento inclui também “Ao Sol”, “African Foxtrot”, “O Amor é Verdadeiro” e “As Tuas Tranças”, entre outras composições que celebram esta fantástica fusão.
“Achei que era a altura. Já fiz outras coisas antes, mas queria muito fazer um disco que refletisse esta abundância de ter uma mãe moçambicana e um pai português, de ter nascido em Portugal e de ter esta riqueza cultural e pessoal“, afirmou Maria João.
“Eu queria juntar estas duas componentes: a parte portuguesa – moderna e eletrónica, aventureira e ambiciosa – com a ancestralidade, a música da minha outra terra, Moçambique”, explicou a artista, sublinhando a necessidade de que o álbum tivesse “uma respiração moçambicana”.
A cantora Maria João gravou um disco chamado Sol (com o Grupo Cal Viva, em 1991), mas este Sol vem de um lugar diferente, onde a terra nos hipnotiza com o seu cheiro e perfume muito próprios. Será, uma obra que celebra a fusão das tradições com o futuro, entre a espiritualidade africana e a inovação eletrónica. Este trabalho, tem um lançamento mundial pela Galileo Musi e a primeira faixa “Ao Sol”, com videoclipe de Lia Fernandes.
Se ouvirmos com a tenção a canção “Beatriz”, uma canção de Chico Buarque e Edu Lobo, aí conseguimos entender melhor a extraordinária interpretação e a talentosa plasticidade da João. No meu entender, a melhor versão que eu já ouvi desta canção. Inicialmente, Maria João pensara em ser psicóloga e advogada, mas a paixão pelo aikido, levou-a a ser cinturão negro.
“Passei alguns maus bocados… Tinha 10 aninhos e tinha tudo o que era necessário para sofrer bullying, porque não sou 100% branca, era gordinha e usava óculos, portanto, estas três coisas juntas eram terríveis. O que é que eu podia fazer? Ou ia queixar-me, ou batia neles. Portanto, arranjei forças e dava-lhes uma tareia! Aquela menina fortaleceu-se desta maneira”.
Maria João Monteiro Grancha, nasceu em Lisboa, no dia 27 de Junho de 1956, filha de pai português e mãe moçambicana. Da infância relembra algumas recordações dessa África misteriosa, que lhe moldou a voz e o modo de cantar.
A música cruzou-se nos seus caminhos sem aviso, em 1976. Nunca tinha sonhado ser cantora e até nem ouvia muita música. Por estranho que pareça, foi num curso de nadador salvador que Maria João, pela primeira vez, teve noção dos seus dotes vocais. Por essa altura, um amigo guitarrista convidou-a a integrar a sua banda rock, como vocalista. Em 1982, quando abriram inscrições na Escola de Jazz do Hot Club, esse mesmo amigo desafiou-a para uma audição. Escolheu a música brasileira Cantador, da autoria de Dori Caymmi. Ensaiou-a vezes sem conta, mas chegada a audição, os músicos pediram-lhe as partituras. Não tinha, nem tão pouco as saberia ler, por isso, atirou-se a um improviso sobre o clássico de Cole Porter, “Night and Day”.
Em 1983 editou o seu primeiro disco, Quinteto de Maria João, recheado de standards americanos, entre eles “Blue Moon”. Também nessa altura teve um programa televisivo de Jazz, na RTP2, que lhe permitiu receber o prémio de Revelação Televisiva do Ano.
Em 1985 editou o seu segundo trabalho discográfico, Cem Caminhos, que inclui dois poemas musicados de Eugénio de Andrade. Com este disco, arrecadou dois prémios, um no prestigiado Festival de Jazz de San Sebastian (Espanha) e o outro atribuído pela Revista Nova Gente, como intérprete feminina do ano.

No ano seguinte, aventurou-se numa digressão avassaladora pela Alemanha, num ritmo de vinte e quatro concertos em cinco semanas, dados em pequenos clubes de jazz. Foi também nesta altura que saiu o seu terceiro disco, Conversa, lançado pela editora alemã Nabel. Num dos concertos da digressão alemã, teve uma espetadora especial que, depois de a ouvir, a convidou para cantar com ela: a pianista japonesa Aki Takase.
Aki Takase movia-se no mundo do free-jazz e Maria João cantava ainda muito presa aos standards norte-americanos. O contacto com a pianista marcou a viragem para um estilo e repertório mais seus. Com Aki, Maria João descobriu que é possível fazer tudo! Durante cinco anos, percorreram toda a Europa e enlouqueceram os públicos dos festivais de jazz, arriscando tudo na corda bamba dos improvisos.
Nestes cinco loucos anos, lançou dois discos, gravados ao vivo, “Looking for Love”, em 1987, gravado no Festival de Jazz de Leverkusen e “Alice”, em 1990, gravado no Festival de Nürnberg. Em 1990, o nascimento do seu filho, João Carlos, marcou o fim do ciclo com Aki Takase. Voltou para Portugal e envolveu-se num projeto com o grupo português Cal Viva.
Dos Cal Viva faziam parte conceituados músicos portugueses, como José Peixoto, Carlos Bica, José Salgueiro e Mário Laginha, e o resultado da colaboração saiu num disco intitulado Sol, em 1991, onde a música tradicional portuguesa e o jazz fundiram-se em sons bem originais.
O disco Danças, lançado em 1994, já pela Verve, marcou o início de uma nova fase e de um novo duo, que persiste até hoje, com o pianista Mário Laginha. Para além dos inúmeros trabalhos discográficos, Maria João e Mário Laginha têm sido convidados a integrar diversos projetos, com destaque para o espetáculo Raízes Rurais, Paixões Urbanas, encenado por Ricardo Pais, em 1998, onde o fado e a música tradicional se cruzavam com a música característica do duo.
Para além do trabalho com Laginha, desde 2003 tem igualmente desenvolvido um interessante trabalho com o quarteto de sopros austríaco “Saxofour”, com o qual gravou dois discos, “European Christmas” e “Cinco.”
2003 também lhe reservou uma agradável surpresa: o convite para o cargo de diretora da Escola de Música da Operação Triunfo, um concurso televisivo de revelação de novos cantores. O desafio foi aceite com enorme energia por parte da cantora, que se entregou de corpo e alma ao projeto, em duas edições do programa.
No final de 2008, Maria João voltou ao estúdio com Mário Laginha para a edição de um álbum comemorativo de 25 anos de carreira. “Chocolate” levou ao regresso da formação de quinteto do primeiro disco editado com a participação de ambos e contou com um conjunto de temas originais e standards, que evocam a sonoridade jazz do início da suas carreiras.
Em conjunto com o seus trabalho com Mário Laginha, em 2009, abraçou o projeto Ogre, que conta com a participação dos músicos João Farinha (piano e teclados), Júlio Resende (piano), Joel Silva (bateria) e André Nascimento (eletrónica). Com esta formação, uma vez mais, a cantora voa para novas paragens, explorando os sons eletrónicos em canções do seu repertório ou versões de outros autores. A banda Ogre já passou por salas como Hot Club de Lisboa, CCB, Onda Jazz ou Fábrica Braço de Prata e estreou-se em disco em 2012 (Eletrodoméstico).