A violência bate à porta de todos

Um país com desigualdades sociais acentuadas desencadeia fragilidades no seu povo.

Temos canais de televisão que nos “informam”, o dia inteiro, do rasto de violência que grassa pelo país; este impacto social e emocional vai tornando os nossos dias pouco felizes.

A violência já não é apenas a notícia distante, contada em manchetes breves ou imagens que desaparecem em segundos nas redes sociais. Ela atravessa as ruas, invade casas, altera rotinas, quebra a confiança e transforma cidades antes tranquilas em lugares de alerta permanente.

Portugal, que sempre se orgulhou de ser um país seguro, sente hoje os reflexos de agressões que vão da intimidação no bairro, no lar, na escola e cada vez mais a crianças, à criminalidade nas grandes cidades, até, aos atos mais brutais que chocam o país. Os últimos tempos têm mostrado esse lado mais negro da sociedade. E mesmo indignados lá vamos assistindo a um impacto coletivo brutal.

Cada incidente de violência deixa marcas invisíveis que atravessam gerações: crianças que crescem com medo de brincar na rua ou até mesmo de irem para a escola, idosos que se trancam em casa, cidadãos que deixam de confiar uns nos outros. A sensação de segurança, que deveria ser um direito básico, torna-se um privilégio. E o que era incompreensível, um ataque sem motivo aparente, uma disputa que termina em tragédia, passa a ser encarado como possível, quase inevitável.

E de onde vem esta violência? Não nasce do nada. Talvez possamos identificar algumas causas como: a desigualdade social, a precariedade económica, o desapego e a falta de oportunidades, que vão alimentando frustrações que, por vezes, explodem em atos agressivos. O desinvestimento em educação e apoio à juventude deixa crianças e adolescentes sem orientação, criando um terreno fértil para comportamentos violentos e disruptivos.

Não devemos esquecer o outro lado: a influência da normalização da violência nos media e nas redes sociais, onde os conflitos são muitas vezes expostos, celebrados ou banalizados, reforçando atitudes agressivas.

Hoje dialogamos pouco e escutamos menos: nas famílias, nas escolas e na comunidade, desencadeando sentimentos de raiva, frustração, ressentimento e injustiça; muitos dos atos de violência vêm desta falha social, moral e afetiva. A agressão torna-se uma forma de afirmação, de protesto silencioso, de expressão do desespero.

Portugal precisa de olhar para esta realidade com intrepidez e urgência; são prementes políticas de prevenção, reforço da educação para a cidadania, combate às desigualdades sociais, criação de programas de apoio à juventude e mecanismos de apoio às vítimas.

A violência é problema de todos nós, porque todos perdemos quando o medo substitui a liberdade, quando as ruas deixam de ser seguras, quando a solidariedade se transforma em suspeita.

São precisos desafios claros: não podemos fingir que a violência não nos toca. Não podemos aceitar que o medo se instale. Precisamos de estar atentos a todas as facetas e formas de violência.

A sociedade só se robustece quando enfrenta o problema, quando cuida dos mais vulneráveis, quando reconstrói a confiança que cada ato de violência tenta destruir.

Um país com desigualdades sociais acentuadas desencadeia fragilidades no seu povo. E, cada um de nós, lá vai suportando as cicatrizes do que poderia ter sido evitado.