A vida vai devorar os filhos dos que hoje se calam – Por Amadeu Ricardo

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O fim da ilusão globalista abriu caminho para o regresso das soberanias. De Washington a Budapeste, de Moscovo a Jerusalém, os governos erguem muros, físicos e simbólicos, contra a ideia de um mundo interligado e cosmopolita. Mas esse regresso, que poderia significar uma reafirmação de autonomia e identidade, carrega consigo uma ameaça conhecida: a reconfiguração das ditaduras com roupas modernas, de grife, travestidas de democracia, segurança e de vontade popular.

Hoje, não são necessárias as marchas militares ou os ministérios da propaganda. O autoritarismo ajustou-se aos tempos: usa algoritmos, as redes sociais e os canais de notícias alinhados para repetir slogans, espalhar o medo e criar inimigos. Donald Trump nos EUA, Viktor Orbán na Hungria, Vladimir Putin na Rússia, Jair Bolsonaro no Brasil e Javier Milei na Argentina são as faces diferentes de um mesmo fenómeno: a instrumentalização do ressentimento e da frustração coletiva para consolidar o poder. Em comum, todos se apresentam como defensores do “povo verdadeiro” contra as elites, migrantes, minorias ou opositores políticos.

O caso de Israel expõe de forma brutal esse paradoxo global. Um “Estado fundado” após o Holocausto, sob o lema do “nunca mais”, conduz hoje, sob Benjamin Netanyahu, uma atrocidade em Gaza que muitos e inteligentes especialistas e organizações de direitos humanos descrevem como genocídio. Que é.

O mundo assiste, dividido, como se fosse normal ver bairros inteiros arrasados e as populações civis condenadas ao extermínio. A memória da maior tragédia do século XX não impediu que os mortos que não foram enterrados deixassem descendência: a lógica da desumanização e da guerra total reaparece sob outras bandeiras, com outros alvos, mas com a mesma essência.

E a Europa? A Alemanha, marcada pelo peso histórico do nazismo, mostra um paradoxo inquietante: enquanto ergue monumentos à memória do Holocausto, mantém o apoio político e militar a Israel, mesmo perante as acusações de crimes contra a humanidade.

A França, com o discurso de Emmanuel Macron, oscilando entre os apelos humanitários e interesses geopolíticos, procura equilibrar-se entre a defesa dos direitos humanos e o receio de perder influência internacional. Já a Itália, sob a liderança de Giorgia Meloni, revela uma viragem nacionalista clara: discursos duros contra migrantes, reaproximação com agendas conservadoras e uma nostalgia velada dos tempos autoritários, sempre sob o pretexto de defender “os italianos primeiro”.

Enquanto isso, a Europa fecha fronteiras a refugiados, os EUA debatem a legitimidade da própria democracia e a América Latina oscila entre populismos de direita e de esquerda. Em todos os casos, a fórmula repete-se: a exploração do medo, a promessa de soluções simples para crises complexas e a corrosão silenciosa das instituições. A manipulação que outrora dependia de rádios e jornais, hoje é potenciada pelas plataformas digitais, capazes de transformar mentiras em verdades virais em segundos.

Os mortos que não foram enterrados – as ideologias autoritárias, os discursos de ódio, a manipulação emocional – regressaram. Não com botas ou uniformes, mas com hashtags, algoritmos e discursos parlamentares.

O perigo não está apenas nos líderes abertamente autocráticos, mas também nesta indiferença global, no hábito de assistir a horrores diários como se fossem parte da normalidade.
Se o século XX nos mostrou os custos da demagogia, o século XXI está a testar a nossa memória. Reconhecemos os sinais, mas hesitamos em chamá-los pelo nome. E é nesse silêncio, nessa normalização, que as novas ditaduras encontram o espaço para florescer e se consolidar.

E aos distraídos, ocupados com selfies, hashtags e consumos efémeros, como se tudo fosse normal, convém deixar claro: a conta dessa indiferença não virá apenas no vosso tempo. Virá com juros pesados para os vossos filhos e netos, que herdarão um mundo menos livre, mais violento e muito mais controlado. A História não perdoa os que se distraem enquanto o perigo cresce.
Ela cobra — e cobra sempre nas gerações seguintes.

Para refletir!

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