A vida difícil da Banda Desenhada – Por Onofre Varela

O Tebeo (ou Cómic) – palavras espanholas que designam Banda Desenhada (BD) – está a passar um mau momento em Espanha… e por cá também. Recordo que no meu tempo de jovem havia várias revistas de BD de continuação, entre as quais posso citar – para além de O Mosquito da minha meninice – o Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante, a Condor Popular, a Audácia, o Titã, o Zorro, o Pisca-Pisca, o Capitão Trovão, o Foguetão, o Falcão… e depois Tintim, Spirou… e mais algumas publicações cujo nome não recordo (citei os títulos que, no correr da escrita, a memória me ditou). Os jornais Expresso e Capital publicaram um suplemento de BD semanal.

Havia um manancial de revistas de “bonecada” para todos os gostos e idades. Depois, as revistas com histórias de continuação deram lugar a álbuns com histórias completas, destacando-se o reaparecimento de O Mosquito na nova modalidade (mas que também tentou o figurino antigo, de continuação semanal, em 1975-76, mas sem êxito), e mais alguns álbuns publicados pelas editoras Futura e ASA, para além de fabulosas colecções de autores consagrados como Hergé (Tintim), Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), Uderzo (Astérix) e Morris (Lucky Luke), entre outros, editadas pelo jornal Público (para citar apenas alguns autores das BD mais clássicas).

A editora Gradiva publicou alguns álbuns de ficção científica excelentemente criada e desenhada por Victor Mesquita, um autor que foi criativo gráfico na África do Sul, regressou com o 25 de Abril de 1974 e produziu BD de muitíssima qualidade. Vi o seu trabalho pela primeira vez na revista Cinéfilo, onde publicou a BD de ficção científica “Navegadores do Infinito”. Depois criou a revista Visão (1973). Acabei por lhe perder o rasto depois de nos encontrarmos num evento de BD em Moura, em Abril de 2011.

Hoje não há publicações periódicas de BD. Já nem os jornais a publicam em tiras diárias.

Volto ao termo Cómic, com que iniciei esta prosa, para dizer que notícia mais ou menos recente (Janeiro de 2024) dava conta de que o Ministério da Cultura Espanhol apresentou o “Libro Blanco del Cómic”, onde se faz uma análise pormenorizada do sector, avançando alguns dados fortemente desanimadores: só 9% da BD publicada em Espanha no ano anterior era obra de autores espanhóis e, destes, 63% não conseguiam atingir, mensalmente, o salário mínimo nacional.

O Ministério mostrou-se interessado em dar resposta ao problema, e no mês de Maio seguinte apresentou uma linha de ajuda com um milhão de euros para repartir por 40 projectos de BD. Não tive (nem procurei) mais informações sobre o caso.

DIA NACIONAL DA BANDA DESENHADA PORTUGUESA

Por cá, em 2023, a Academia Nacional das Belas Artes (ANBA) reconheceu a BD como uma “forma superior de expressão da cultura”. Depois a ideia caminhou até à Assembleia da República onde, a 27 de Setembro do ano seguinte, por proposta do Partido Livre, foi reconhecido o dia 18 de Outubro como “Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa”, com publicação no Diário da República no dia 7 de Outubro de 2024.

A data 18 de Outubro foi escolhida pelo facto de ter sido nesse dia que, em 2023, a ANBA fez o histórico reconhecimento… não tendo nada a ver com algum facto da verdadeira história da BD Portuguesa. Nesse sentido, alguns autores criticaram a data que podia ter sido mais bem direccionada, como, por exemplo, o dia 3 de Agosto, data em que, no ano de 1850, foi publicada a primeira prancha de BD nacional, “Aventuras Sentimentais e Dramáticas do Sr. Suplício Baptista”, da autoria de Flora, na “Revista Popular”, segundo a defesa de Paulo Monteiro, autor e editor de BD, e director do Festival Internacional de Beja, em declarações ao jornal Público.

Já o investigador e académico Pedro Moura considerou que a data devia ser a do nascimento de alguma personalidade nacional ligada à BD como, por exemplo, Raphael Bordallo Pinheiro.

Seja como for, não coincidindo a data 18 de Outubro com nenhum evento ligado a um qualquer autor digno de nota na história da BD Portuguesa, parece-me que o importante é que a data exista, que seja recordada todos os anos, que ajude a promover a BD nacional e os seus autores… e (isto já é um devaneio meu) que os quiosques de rua e dos cafés encham os seus escaparates com revistas de BD de autores Portugueses (mas também estrangeiros), por entre os vários títulos de jornais diários e de revistas mensais!…

(Shiiiiu!… Façam pouco barulho para não me acordarem deste sonho!…)

Capa da revista “Camarada” Nº1, 2º Ano. Janeiro de 1959.

 

“O Mosquito” Nº1 da 4ª Série, publicado em Dezembro de 1975, numa tentativa (não conseguida) de criar novos leitores de BD e dar nova vida ao histórico título da publicação.

“Olindo”. As primeiras três tiras de uma BD que publiquei na Página Juvenil do jornal Notícias da Tarde (1982). Criei um herói negro para desenjoar da ideia de todos os heróis de BD serem brancos!

“Rosnau & C.ª”. Tira satírica diária que publiquei no Jornal de Notícias na década de 1990.