Eu escrevo depois de tentar fazer avançar trabalho, ideias e projetos que pertencem a um território e a uma comunidade concreta, e recebo em troca uma resposta correta, funcional, onde tudo parece arrumado e, ainda assim, nada toca no que foi dito; falo de criação e recebo um enquadramento que já existia antes de eu falar. E, por um instante curto, pensei que aquela resposta não era para mim, não por discordância, mas porque não reconhecia ali a pessoa a quem me tinha dirigido. É aqui que a incompreensão se instala, sem conflito nem ruído, como um desfasamento entre o lugar de onde falo e o lugar onde me colocam, instalando-se também no corpo como a sensação nítida de estar fora de lugar, como a dúvida persistente sobre se fui ouvido ou apenas enquadrado.
Volto a ler a resposta, não para a desmontar, mas para perceber de onde vem. Leio devagar. Falta ali qualquer coisa simples, difícil de nomear: a sensação de que alguém ficou comigo no assunto durante mais de um instante. Tudo está certo e resolvido rápido demais. A incompreensão cresce aí, nesse desfasamento entre o tempo de quem responde e o tempo de quem propõe.
O desamparo aparece logo a seguir. Não como queda nem como drama, mas como clareza. Não há continuação possível naquele registo. Não há segunda pergunta. Não há espaço para desenvolver. Há encaminhamento. E quando tudo é encaminhado, nada é realmente recebido.
Percebo então que isto não é sobre mim, nem sobre aquela resposta específica. É sobre a forma como certos lugares funcionam quando a escuta deixa de ser prática e passa a ser procedimento, quando responder substitui conversar e fechar substitui sustentar. Como escreveu Hannah Arendt, o espaço público só existe enquanto houver ação e palavra partilhadas; quando uma delas se esvazia, o comum contrai-se. Não é estranho que quem insiste nesse espaço intermédio acabe lido como figura deslocada, à maneira de uma personagem de Cervantes, Dom Quixote, a lutar contra moinhos que outros já
normalizaram.
Criar, nestas condições, passa a acontecer noutro lugar. À margem, em paralelo, fora do
circuito formal. Não por escolha romântica, mas por necessidade prática. O custo disto é
silencioso. Não aparece em relatórios nem em agendas, mas acumula-se. Quando a escuta desaparece, algo comum deixa de acontecer.

Produtor Executivo
Projetos Culturais (R&D)














