A Montanha que todos carregamos

Dois anos não chegam para medir uma ausência. Aprendemos isso aos poucos, nos detalhes mais pequenos, nos momentos inesperados em que a memória regressa sem aviso.
Foi nesse lugar, entre o que passou e o que permanece, que li A Montanha, de José Luís Peixoto.
Há livros que não se leem apenas com os olhos. Este é um deles. Exige atenção, mas sobretudo disponibilidade emocional. Não oferece conforto fácil, nem finais resolvidos. Em vez disso, constrói-se a partir de vozes, memórias e fragmentos que nos obrigam a confrontar aquilo que tantas vezes evitamos: a doença, a perda e a morte.
Perdi a minha mãe para o cancro há dois anos. O tempo avançou, mas a experiência não ficou para trás. Transformou-se. Tornou-se mais silenciosa, mais difusa, mas não menos presente. Ao longo da leitura, essa presença revelou-se em ecos constantes: nos corredores de hospital, na espera que parece suspender o tempo, na fragilidade do corpo e na forma como tudo ganha um peso diferente.

O livro constrói-se a partir de testemunhos reais. Histórias que surgem com proximidade e urgência, formando um conjunto de fragmentos que, juntos, desenham um retrato mais amplo da doença. Não há uma narrativa única, mas múltiplas experiências que se cruzam. Em todas elas, há medo, cansaço, resistência e, por vezes, uma leveza inesperada, quase discreta, que insiste em existir mesmo nos contextos mais difíceis.
À medida que a leitura avança, esse registo mais concreto transforma-se. A narrativa desloca-se para um território mais interior, onde memória e ficção se misturam. A montanha deixa de ser apenas uma imagem e passa a representar aquilo que carregamos: a dor, a ausência, mas também o esforço contínuo de compreender e seguir em frente.
Quando o autor convoca a morte do próprio pai, o texto atinge um dos seus momentos mais densos. Não há excesso nem dramatização evidente. Há contenção. E é nessa contenção que o impacto cresce. A escrita surge como um gesto de aproximação, uma tentativa de dar forma à ausência, de fixar aquilo que já não pode ser dito.
Dois anos depois, reconheço esse movimento. A perda não desaparece. Reorganiza-se. Passa a fazer parte da forma como vemos o mundo, como lemos, como lembramos. Ler A Montanha foi, nesse sentido, mais do que acompanhar histórias alheias, foi reconhecer que a experiência individual nunca é totalmente isolada. Há sempre um ponto de encontro, uma partilha silenciosa.
O livro não oferece respostas fáceis. Não encerra histórias de forma definitiva. Em vez disso, deixa uma sensação de continuidade: a memória, a dor e a vida coexistem.
A literatura torna-se, assim, um espaço de encontro, entre quem escreve, quem viveu e quem lê.
Fica a ideia de que cada perda transporta consigo não apenas ausência, mas também permanência. Algo que resiste: uma voz, um gesto, uma presença que, embora transformada, continua a fazer parte do quotidiano.
No fim, há tristeza, mas também clareza. Há dor, mas também entendimento. E talvez seja isso que o livro propõe: não ultrapassar a montanha, mas reconhecê-la como parte do caminho.
Aprender a viver com ela. Continuar, mesmo assim.
OC/SR