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Domingo, Abril 14, 2024

A minha querida amiga São Correia – ou quando a única forma de comunicar é com os olhos…

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A minha amiga São tem três filhos e um neto. A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), prendeu-a à cama para o resto da sua vida.

A única parte do corpo que ela consegue movimentar são os os seus vistosos e deslumbrantes olhos! O resto do corpo, está “morto” para sempre. Está a terminar um livro sobre Lagos, terra onde nasceu e de quem guarda imensas saudades, todo ele, escrito com o olhar…Pedi uma viola para cantar algumas das minhas canções infantis ao seu neto.

Curiosamente, a sua nora é educadora de infância e vou ensiná-la a tocar viola, pois é um instrumento muito útil para o seu trabalho diário. Alguém na sala aflorou o nome do Manuel Paulo, ligado a um disco infantil, logo a São escreveu no computador o nome do disco. Além de escrever com o olhar, há a possibilidade de as palavras terem som e assim podemos ouvir a voz da São e não uma voz computorizada…

Foi guardada uma entrevista de rádio e foi graças a essa gravação que conseguimos recuperar a voz da nossa querida São. Stephen Hawking, foi vítima da mesma doença, desenvolveu um programa para computador que coloca quem infelizmente padece desta doença, em permanente contacto com o mundo. Obrigado Stephen! Foi a mesma doença que vitimou o nosso querido José Afonso!

A alimentação é feita por um tubo e é necessário estar sempre atento(a) ao excesso de saliva que se acumula na boca e que tem que ser aspirado regularmente. O seu fantástico marido, reformado da banca e músico (voz e percussão), com quem tive o prazer de trabalhar é incansável na sua dedicação à sua querida mulher. São! Acertaste no marido, minha querida!

Lembrou-me os últimos dias da esposa de Leonard Bernstein, no filme “O Maestro”, em que ele anula concertos e digressões para estar sempre a seu lado. Querem maior prova de amor do que a do Pedro e do Leonard?

Inicialmente, ver a minha querida amiga, a única que me chamava Barbosa, foi um tremendo choque, pois ela, foi das mulheres mais ativas que conheci em toda a minha vida! Era na ação social, no teatro, no contacto com emigrantes, sempre com o seu maravilhoso sorriso e sempre pronta para ajudar toda a gente. E agora? Consegue comunicar e conviver com os que se acercam da sua cama, apenas com o seu gracioso olhar…

Peço a Deus do fundo do coração, que lhe preserve esses donairosos olhos, olhos que o seu lindo neto, de apenas três anos, herdou.
São, estou a preparar a minha vinda para voltar para Lisboa e aí já sabes que vais ter o Barbosa, sempre que puder, ao teu lado. Aliás, vou-te incumbir de selecionares os textos do livro que irei publicar este ano “Nascer aos Sessenta”. Boa!

Algumas vezes a Isabel chamou-me à atenção por passar a vida a queixar-me de tudo e de nada…Depois de ter estado contigo, antes de “resmungar”, penso em ti, São.
Afinal, nós queixamo-nos de quê e do quê ?…

Um beijo grande, minha querida amiga. Estás e sempre estiveste no meu coração. Bem hajas por tudo o que partilhamos, ao longo de tantos anos de amizade. Obrigado!

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