A Máquina da Impunidade – Por Amadeu Ricardo

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Dezassete vidas esmagadas. E o país finge normalidade.
O ritual está escrito de antemão: conferências de imprensa, frases feitas de circunstância, lágrimas fabricadas diante das câmaras. Depois, silêncio. Arquivo. E nada muda.

É sempre assim — e continuará a ser — porque os responsáveis já aprenderam que neste território a palavra “responsabilidade” é uma ficção. Ninguém assume. Ninguém responde. Os cargos não tremem, os salários não param, as carreiras políticas seguem intactas. Só os caixões é que descem à terra.

Quem devia garantir segurança reduziu tudo a contratos, subcontratos e papelada sem rosto. A manutenção virou negócio. A vida das pessoas transformou-se num custo. E como o custo é sempre para cortar, corta-se. Até partir. Até matar.

A comunicação social, domesticada, vai repetindo a cartilha: não há culpados, não houve falhas graves, foi um “acidente”. A palavra mágica que apaga crimes. O mecanismo perfeito para inocentar quem decide e esmaga quem sofre.
E quando alguém ousa apontar o dedo, entra em cena a justiça — esse teatro obscuro de processos intermináveis, investigações convenientemente inconclusivas e prescrições cirúrgicas.

O Ministério Público, que deveria servir o povo, acaba por proteger o sistema. Simula diligências, abre inquéritos, recolhe provas, acumula pastas. E depois? Nada. Os anos passam, as vítimas envelhecem no sofrimento, os culpados seguem de gravata e com sorriso. E os casos morrem, não por falta de crime, mas por excesso de conveniência.
O país habituou-se. Os governantes sabem que basta esperar: a indignação dura o tempo de um ciclo noticioso. Logo surgirá outro drama, outro escândalo, outra distração. O passado enterra-se depressa. Tal como as vítimas.
Se houvesse decência, o mínimo seria a demissão imediata de quem tem responsabilidades diretas. Mas decência não consta no manual desta oligarquia que se disfarça de democracia. O que conta é proteger a máquina, preservar os interesses, manter o negócio em andamento.

Os mortos não protestam. As famílias gritam, mas são abafadas. E o país, cansado, cala-se. Até à próxima tragédia. Porque haverá sempre uma próxima.

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