A Manada e o Matadouro

Lembram-se daquela velha história que nos ensinaram desde crianças: que devemos ter medo do lobo.
O lobo é o perigo.
O lobo é a ameaça.
O lobo vive na floresta, esconde-se na sombra à espera do momento certo para atacar.
Mas o problema sempre foi o pastor, aquele que ninguém desconfia.
E talvez seja aqui precisamente que tudo começa.
O lobo mata para sobreviver. O pastor conduz o rebanho inteiro para o matadouro e ainda recebe os aplausos de agradecimento pela sua dedicação.
Quando olho para o que se passa no mundo actualmente não consigo deixar de pensar nesta metáfora.
Vivemos uma época em que milhões de pessoas trabalham mais e vivem pior. O acesso à habitação tornou-se um luxo para uma franja cada vez maior da população. Os salários perdem poder de compra. Os serviços públicos degradam-se. A riqueza, essa, concentra-se em cada vez menos mãos. Nunca houve tanta capacidade para produzir riqueza e, no entanto, aumenta o número daqueles que vivem permanentemente preocupados com a próxima factura, o próximo aluguer ou a próxima prestação.
O mais lógico seria que qualquer pessoa se interrogasse sobre quem beneficia com este modelo. Quem ganha quando o trabalho vale menos e os activos valem mais. Quem lucra enquanto a maioria aperta o cinto.
Mas essa raramente é a pergunta.
É sempre mais fácil apontar o dedo para quem está mais abaixo.
O imigrante.
O refugiado.
A minoria.
O diferente.
O estranho.
O bode expiatório muda de nome conforme a época, mas o mecanismo, esse permanece intacto.
Enquanto os que têm pouco culpam os que têm ainda menos, os verdadeiros centros de poder permanecem longe do campo de visão. A discussão pública transforma-se num combate entre as vítimas, enquanto os responsáveis pelas regras do jogo observam à distância.
Os exemplos estão por toda a parte.
Na Argentina, décadas de inflação, endividamento, crises sucessivas e empobrecimento social criaram uma população cansada de promessas falhadas. Num contexto assim, aqueles discursos simplificados encontram um terreno fértil. Quando a falta de esperança se instala, qualquer discurso que identifica culpados imediatos e muito mais atractivo do que a análise das causas dos problemas. Mas a pobreza não desaparece só porque se muda o alvo da indignação. Nem as desigualdades desaparecem porque se encontra um novo inimigo para culpar.
No Brasil aconteceu algo semelhante. A corrupção, a violência e a degradação de muitos dos serviços públicos acabaram por gerar uma revolta legítima. Porém, grande parte dessa energia é desviada estrategicamente para guerras culturais permanentes. Enquanto milhões de pessoas discutem ideologias, costumes, religião ou identidade, os problemas estruturais continuam intactos. Entretanto a concentração da riqueza mantém-se. As desigualdades mantiveram-se. Os mecanismos de exclusão social continuaram a funcionar. Mudaram os discursos. Os problemas essenciais ficaram.
Portugal não é diferente. Apenas opera numa escala menor.
A crise da habitação tornou-se um dos maiores flagelos da sociedade portuguesa. Os jovens trabalhadores não conseguem comprar uma casa. Os casais com um emprego estável têm de adiar os seus projectos de vida. Famílias inteiras que são empurradas para longe dos locais onde nasceram e que trabalham. Seria natural questionar décadas de políticas falhadas, a especulação imobiliária, o capitalismo financeiro da habitação, os interesses instalados, a valorização do acionista e a incapacidade sucessiva dos governos para responder a um problema que se vem agravando há muitos anos.
No entanto, uma parte crescente do debate público amplificado pelos grandes grupos de comunicação prefere sempre as explicações mais simples às explicações mais verdadeiras.
É mais cómodo apontar para quem chegou recentemente ao país.
É mais fácil transformar o vizinho …
É mais fácil transformar o vizinho em ameaça do que questionar os interesses que transformaram a habitação num activo financeiro.
Quando uma casa custa vinte ou trinta vezes o rendimento anual de uma família, o problema não teve início com o trabalhador estrangeiro que chegou há dois ou três anos. Quando os salários permanecem estagnados durante décadas, a responsabilidade não pertence ao refugiado que procura uma vida melhor. Quando os serviços públicos enfraquecem e se degradam, dificilmente a culpa vai recair sobre aqueles que ocupam as posições mais confortáveis da sociedade.
Mas o medo, esse mesmo medo,é uma ferramenta política extraordinariamente eficaz.
O medo simplifica.
O medo dispensa a análise.
O medo transforma os vizinhos em inimigos.
E transforma problemas económicos em conflitos identitários.
E é precisamente neste momento que o pastor deixa de ser observado.
E quanto menos observamos o pastor, mais facilmente a manada aceita o caminho que lhe é traçado.
A extrema-direita compreendeu isto na perfeição.
Não precisa de resolver os problemas.
Basta identificar culpados.
Não precisa de apresentar soluções.
Basta alimentar os ressentimentos.
Não precisa explicar a complexidade do mundo, o qual nem eles entendem.
Basta oferecer respostas simples para problemas complexos.
E as respostas simples, essas têm sempre mercado e plateia.
Pensar exige esforço.
Questionar exige coragem.
A indignação exige consciência.
E o ressentimento exige apenas um alvo.
Talvez por isso seja tão fácil convencer os trabalhadores precários, jovens sem acesso à habitação ou famílias esmagadas pelo custo de vida de que os seus inimigos são aqueles que chegaram depois deles.
É uma operação política brilhante.
Transforma a revolta em distracção.
Transforma a frustração em hostilidade.
Transforma a vítima em vigilante do próprio sistema que a prejudica.
O que mais perturba é observar as pessoas abandonadas durante décadas pelas elites económicas e políticas acabarem por defender discursos que favorecem precisamente essas mesmas elites. Julgam que estão a combater o sistema, quando, na verdade, apenas escolheram uma nova versão da mesma coleira.
Mudam os partidos.
Mudam os líderes.
Mudam os slogans.
Mas o pastor permanece.
Sempre a apontar para o lobo.
Sempre a garantir que o perigo vem da floresta.
Sempre a prometer que tudo estaria resolvido se não existissem aqueles que falam outra língua, têm outra cor de pele, outra religião ou outra forma de viver.
E a manada acredita.
Acredita porque não pensa.
Acredita porque tem medo.
Acredita porque está cansada.
Acredita porque procura as respostas imediatas para perguntas difíceis.
Mas a realidade nunca foi simples.
O lobo raramente decide o destino do rebanho.
Quem decide é quem fecha os portões.
Quem decide é quem escolhe o caminho.
Quem decide é quem constrói a cerca.
A história sempre tem mostrado que os matadouros nunca começam com cercas.
Começam sempre com os mesmos discursos.
Primeiro escolhe-se o inimigo.
Depois convence-se a manada de que está a seguir por vontade própria.
Por isso, talvez tenha chegado o momento de o…

Depois convence-se a manada de que está a seguir por vontade própria.
Por isso, talvez tenha chegado o momento de olhar menos para a floresta e mais para quem segura o cajado.
Porque, no fim, quando fazemos a contabilidade, nunca foi o lobo que construiu o matadouro.
QUANDO O POBRE PASSA A ODIAR O MISERÁVEL, O RICO PODE DORMIR DESCANSADO. QUANDO O TRABALHADOR TEME O IMIGRANTE MAIS DO QUE O ESPECULADOR, O MATADOURO JÁ ESTÁ EM FUNCIONAMENTO. O TRIUNFO DO PASTOR NÃO É CONVENCER A MANADA A SEGUI-LO. É CONVENCÊ-LA DE QUE O CAMINHO PARA A FACA É UMA ESCOLHA SUA.