18.8 C
Porto
21.7 C
Lisboa
21.9 C
Faro
Segunda-feira, Junho 17, 2024

A Liberdade de pensar, ser, dizer e fazer

As mais lidas

Onofre Varela
Onofre Varela
Jornalista/Cartunista

Nos 50 anos da Revolução dos Cravos é bom que façamos um exercício reflexivo, mergulhemos na História e viajemos até ao tempo antes do 25 de Abril de 1974. Exercício que só poderá ser feito por quem viveu tais tempos… os mais novos podem documentar-se, conversar com os avós, juntar testemunhos e usar o seu raciocínio.

Para os avós de hoje, 50 anos “foi ontem”… mas para os netos… foi no milénio passado (e foi mesmo!…) sendo que esse “milénio” quer dizer “tempo incontável”… como aquele que nos separa da época em que viveu Viriato!

Alicerçado da minha experiência, quero dizer aos meus leitores mais novos que desde há uma vintena de anos colaboro com jornais regionais onde publiquei textos (em número que excede as três centenas) em favor do Ateísmo. Esta colaboração só foi possível por dois factores:

1 – À Liberdade de Expressão garantida pela nossa República Laica, graças ao 25 de Abril de 1974.

2 – À estatura humanista que demonstraram ter os respectivos directores de ambos os jornais (Gazeta de Paços de Ferreira e semanário Alto Minho).

Confesso que me fartei de tanto escrever sobre o mesmo tema e decidi abordar nos meus escritos publicados nesses jornais, outros assuntos; também por duas razões: para renovar as motivações de escrita, e para não dar a ideia que escrevo, apenas, sobre um único tema… o qual, ainda por cima, não agrada a imensa gente, principalmente aos saudosos do tempo em que só se podia ser Católico e que a palavra “ateísmo” fazia parte da extensa lista de proibições, e identificava o pensamento de “cidadãos mal comportados”.

Mas não era só aos ateus a quem se negava a voz… os religiosos devotos da igreja Testemunhas de Jeová, por exemplo, eram perseguidos, e alguns evangélicos, como Baptistas e Adventistas, também não tinham a vida facilitada nesta sociedade que estava formatada para os tratar por “Protestantes”… cujo termo era usado como insulto!…

Por isso apeteceu-me falar dos heróicos militares que fizeram o 25 de Abril… e começo por aqui: nunca gostei de militares!…

Cumpri o serviço militar obrigatório contra a minha vontade. Na minha juventude as palavras “Pátria” e “Portugal” soavam-me a falso. A Pátria era uma quinta que não era minha… nela eu não passava de um lacaio dos patrões daquela porção de terra chamada Portugal. E “ensinaram-me”, pelos livros da escola primária, que Portugal era “o maior país do mundo”… e eu a tentar conferi-lo com uma régua graduada sobre o mapa!

Mentiram-me no ensino. Um país que “ensina” assim os seus cidadãos não é digno de respeito algum… e agora há por aí uns “chefes-de-família” saudosos desse tempo que o querem ver reimplantado contra a dignidade de todos nós, começando pela das mulheres que querem ver novamente como as “fadas-do-lar”, que não abortem por vontade própria recusando à propriedade do seu corpo, e que temam a figura mítica designada Deus, pois foi para isso mesmo que o Homem a criou… para ser temida.

Aos vinte anos, obriguei-me a cumprir serviço militar porque não soube fugir-lhe. Três anos depois de uma experiência desagradável (dois deles passados no norte de Angola), contando uma pena de prisão de quatro dias, e três louvores, regressei à vida civil em 1968 sem saudades da vida militar e detestando todos os militares do mundo!

Passados seis anos, numa madrugada de movimentação militar, a Liberdade saiu à rua… e no Sol da manhã os soldados tinham um cravo vermelho no cano das armas. Os “donos-da-quinta” não foram assassinados como se faz noutras partes do mundo por exércitos sanguinários. Aqui, foram respeitados e colocados no país que escolheram para viver o resto das suas vidas, e os “lacaios-da-quinta” receberam, pela acção dos militares, a Liberdade que lhes era negada há 48 anos.

Então senti (e continuo a sentir meio século depois) o maior respeito pelos militares que fizeram o 25 de Abril, mas que aos 20 anos detestei. Limparam a sua imagem com a reimplantação da Democracia e recolocaram a República nos seus eixos. Destruíram a Ditadura que até aí serviam, terminaram com uma Guerra Colonial criminosa e, sem derramarem sangue como fazem os militares de outras partes do mundo, devolveram-nos a Liberdade que respiramos há 50 anos.

Quem não sentiu a Ditadura não sabe o que é viver por procuração, calar a sua voz e lutar na clandestinidade contra quem prendia, agredia, torturava e deixava morrer no campo de concentração do Tarrafal muitos dos que sonhavam com uma Pátria digna e Livre. Os militantes comunistas de então merecem ser honrados por isso, e é necessário dedicar-lhes uma estátua.

A minha chegada aos jornais, como colaborador eventual, aconteceu em 1969 no jornal O Primeiro de Janeiro. A minha entrada como efectivo, trabalhando a tempo inteiro, só aconteceu em 1978 (tinha eu 34 anos), já com o jornal liberto da “Comissão de Censura”, a qual revia todas as provas tipográficas que os jornais estavam obrigados a apresentar aos censores com gabinete montado perto dos jornais para um acesso mais rápido.

Pela minha entrada tardia nos jornais, não senti a censura do Estado Novo. Vim a conhecê-la contada por camaradas mais velhos. O curioso de tudo isto é eu ter sentido a censura enquanto cartunista e autor de textos (antes de me ser atribuída a carteira profissional de jornalista) já depois de vivermos em Democracia!… E isto tem uma leitura: devemos estar continuamente alerta. A Liberdade nunca está garantida!

A Democracia não é uma vitória total e eternamente conseguida… ela constrói-se dia-a-dia pelas nossas acções, enfrentando quem no-la quer retirar. Temos de refazer e vigiar, constantemente, o seu “prazo de validade”!…

Que os jovens não esqueçam esta realidade. Que não se deixem encantar por discursos de lobos muito bem falantes e vestidos com pele de cordeiros. O futuro é sempre incerto… cabe-nos tratar dos trilhos para que o comboio da Democracia e da Liberdade não descarrile, e para que o “prazo de validade” da Democracia não azede a Vida que Abril nos deu.



- Publicidade -spot_img

Mais artigos

- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img