A Ironia do Futebol: Com um Penálti Mataste, Com um Penálti Morreste

Ah, o futebol. Esse território estranho onde a memória é curta, as certezas duram noventa
minutos e a ironia costuma aparecer quando menos se espera.
Como portista, confesso: a eliminação do meu clube da Taça deixou sabor amargo. Mas
o futebol, caprichoso como sempre, tratou depressa de recordar uma velha lição —
ninguém está imune ao peso das expectativas.
Vimos o Sporting entrar em campo envolto na confiança de quem acredita que o destino
lhe pertence. E talvez acreditasse mesmo.
Mas o futebol tem uma crueldade elegante. Às vezes, escreve-se num erro defensivo;
outras, num momento de desconcentração. Desta vez, escreveu-se num penálti.
E fica a sensação inevitável, quase poética: com um penálti mataste, com um penálti
morreste.
Não há maior ironia desportiva do que essa. O mesmo detalhe que tantas vezes decide
triunfos acaba por ditar quedas. O mesmo entusiasmo transforma-se em silêncio. O
rugido converte-se em resignação.
Enquanto portista, não escondo um sorriso perante a coincidência do destino — porque
rivalidades vivem também destes pequenos prazeres. Mas o sorriso dura pouco. Quem
ama futebol sabe que se hoje observa a queda do adversário, amanhã pode ser o seu
clube a cair.
É por isso que as vitórias exigem humildade e as derrotas exigem memória.
No fim, sobra apenas a verdade mais incómoda do futebol e que todos devem admitir,
incluindo nós Portistas: ninguém ganha sozinho, ninguém vence para sempre e o trabalho
nunca está concluído.
Que venha a próxima época.