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Segunda-feira, Junho 17, 2024

“A Filha Única” ou o livro encontrado no museu Soares dos Reis

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Maria João Coelho
Maria João Coelho
Filósofa/Colaboradora

Julgo que desde que a minha única filha B. nasceu, nunca falhámos uma ida a um Museu no Dia Internacional dos Museus. Entrar num museu é como entrar numa viagem em que conhecemos o ponto de partida, mas daí em diante é um manancial de descobertas!

E, tal como sempre fizera, analisei as diversas atividades e opções e optei por preparar mais um programa a duas, mãe e filha! A opção desta vez recaiu no Museu Nacional Soares dos Reis.

A B., desde pequenina, aderiu entusiasticamente às atividades, desde as “horas do conto” aos workshops de pintura e jardinagem, passando por programas como os de música para crianças, à construção de espantalhos e outros instrumentos; perdi a conta às horas e às iniciativas em que participámos por esses museus Europa adentro! Este ano como a Assarapanto lançou a primeira edição da iniciativa ‘Um livro no Museu’, tínhamos um mote motivacional acrescido – uma caça ao livro! A dupla perfeita! Para duas livrólicas como nós não poderia haver melhor desafio. Os astros estavam alinhados…

O Museu Nacional Soares dos Reis foi o primeiro em Portugal. Inicialmente, era conhecido como Museu Portuense e, desde 1833 que sofreu várias mudanças e transformações desde o seu nome às suas instalações. Porém, desde 1940 que se instalou definitivamente na sua casa atual – o Palácio dos Carrancas.

A grandiosidade e beleza do edifício, bem como as suas histórias convertem-no em centro nevrálgico indissociável da própria vida e política da Cidade do Porto. Daí, que não poderia haver melhor espaço para albergar o pioneiro de todos os museus. E não poderia ser mais assertiva a nossa escolha.

E como um museu é um conjunto complexo que entrecruza edifício, paredes, exposições, linhas temporais e materiais com pensamentos formais e estruturas organizacionais numa teia que visa a preservação da memória e do conhecimento, mas também a construção de novos significados e partilha de novas abordagens artísticas e culturais. Por isso, entrar num museu é sempre aceder a um espaço de encontro, reencontro com a continuidade e com a inovação. Para nós, cada museu é um espaço que se abre também à imaginação!

A exposição de longa duração convida-nos a percorrer o edifício central do museu e, bem assim, a entrarmos na casa como se mergulhássemos dentro de uma câmara fotográfica e regressássemos aos idos tempos do séc. XIX espreitando o quotidiano e as gentes pelos olhos dos pintores românticos, naturalistas e realistas.

Percorremos as salas amplas onde as paredes refletem uma luz oblíqua que ilumina os quadros e nos deixa perceber a conjugação entre a descontinuidade dos pensamentos e da imaginação e a continuidade metodológica a que a exposição obedece. É neste espaço-centro que o Museu ganha o seu esplendor. Um espaço onde inúmeras possibilidades surgem, como uma teia de conhecimentos e memórias que vamos apreendendo em cada tela, em cada objeto. Quase que experienciamos as vivências de outrora tal a sua semelhança com aquela realidade.

Acompanhadas por um grupo de crianças de uma Escola de Vila Nova de Gaia, tivemos de nos conter nos diálogos imaginários! E eis que junto a Amadeo de Souza-Cardoso, um dos meus pintores favoritos, encontrámos o primeiro livro! Que belo lugar para ser largado e por nós achado!

E quando se vislumbra O Desterrado na sua grandeza, emerge a perfeição da técnica de esculpir de Soares dos Reis. Por momentos, parece que estamos numa das salas da Galleria degli Uffizi, melhor ainda, talvez na Galeria da Academia, pois são as esculturas que aqui se evidenciam, bem como a influência dos mestres escultores italianos que Soares dos Reis terá admirado! Sem dúvida, que esta é a sua obra-prima, não por ter sido realizada em Roma, com mármore de Carrara, nem por ter sido a peça com que concluiu o curso de Escultura, tão pouco por lhe ter valido fama e glória, prémios e condecorações, pois também lhe trouxe acusações, calúnias e dissabores! Antes, porque O Desterrado é a materialização da consciência nostálgica que cada um de nós pode sentir através daquele jovem. É a atestação da nossa identidade saudosista, sem dúvida!

No andar nobre encontramos a Sala de Jantar verde e a Sala da Música. O espelho que reflete e alude a todos os vultos e rostos que por ali passaram. Nesta sala de música nos tempos em que o Palácio dos Carrancas terá assistido a glamorosas noites burguesas devem por aqui ter bailado nobres e astutas moças portuenses. Quiçá tiveram como seus pares generais ou liberais. E ainda que o General Soult ou o seu sucessor Inglês Wellesley não dançassem, certamente terão discutido assuntos militares com os seus graduados na sala de jantar!

E também por ali terá jantado D. Pedro IV com os intelectuais e burgueses portuenses enquanto maquinavam a estratégia de libertação da cidade do cerco que o seu irmão absolutista lhe tinha feito! O Rei Soldado talvez tivesse aquietado o seu coração ao som da Harpa que ainda ali encontramos, porque mesmo destemido e sabedor da coragem e resistência do povo portuense, não deve ter sido fácil levantar o cerco ao Porto! Certo é que, graças á heroica resistência, os liberais ganharam e a cidade do Porto ganhou o seu nobre epiteto – Invicta.

Esse seria certamente um nobre motivo para uma noite de música e bailado no Palácio… Estes e outros episódios que a nossa imaginação quer teimar em desenhar ao contemplar estas salas com paredes forradas de frescos de pintores italianos, não estarão muito longe dos cenários possíveis que nessa época entre estas paredes terão sido vividos.

Talvez por isso, e para nos trazer de volta ao tempo presente, estava pousado o livro que a B. encontrou! Vitória, vitória…a manhã terminou sem que puséssemos um pé nos jardins rosa, chovia a cântaros como se diz aqui no Norte; ficámos a espreitar o Velódromo Maria Amélia pela janela e já à saída a contemplar a imponente fonte a abrir o jardim das Camélias.

Saímos felizes de livros na mão e alma cheia! Ah! Quanto aos livros, o da B. chama-se “A Filha Única”(Guadalupe Nettel) que, entretanto, já começou a ler e o meu “O sonho de Mateus” (Leo Lionni), está já embrulhado e destinado a uma menina que também adora ler.


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