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Sábado, Novembro 29, 2025

A Escola cheira a Alma – Uma crónica sobre Perfumes, Viagens e Saber do Nariz

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Foto de ALENA

Durante anos, desde tenra idade, em cada viagem — Paris, Madrid, Atlanta, Valeta, Tunes, São Paulo, Istambul — havia um ritual inadiável nos aeroportos: antes do embarque, eu parava nas perfumarias. Eu procurava a embriaguez dos aromas, jorrava os perfumes no pulso, fechava os olhos e lia, escutava, flutuava. Não eram rótulos, mas almas. Aprendi que um bom perfume não se escolhe: reconhece-se. E, como escreveu Patrick Süskind no célebre livro O Perfume (1985), “quem dominasse o sentido do cheiro dominaria o coração dos homens”. Não para os subjugar — mas para compreendê-los.

Essa prática permaneceu e teve o seu esplendor em Grasse, na capital do mundo da perfumaria, onde me perdi entre campos de jasmim absoluto ao alvorecer, no sopé dos Alpes Marítimos. Senti o ar húmido do orvalho e imaginei ali as colheitas pacientes que começariam antes do sol. As mulheres colheriam as flores com um gesto delicado quase devoto. Compreendi então: o perfume não é luxo — é trabalho, tempo, memória. Cada essência carrega consigo o solo, o clima, a língua que a nomeia.

Mais tarde, em Tunes, onde ensinei no Liceu Sadiki e no Instituto Superior de Línguas de Tunes, aprendi outra lição: o cheiro do incenso nas mesquitas, o jasmim selvagem na falésia azul e branca do Golfo de Tunes, em Sidi Bou Said, a flor de laranjeira nos pátios — tudo era linguagem. Os tunisinos, ao cheirarem certos perfumes ocidentais, diziam: “Isto lembra-nos o nosso jasmin!” E eu via como o árabe e o português se encontravam no olfato, antes de se encontrarem na palavra.

Mas há uma verdade mais íntima: o corpo feminino tem o seu próprio campo de pétalas em flor. Não no sentido biológico, mas no poético — naquele registo onde Eugénio de Andrade poderia dizer que o corpo é um “país onde se morre de coração inacabado”, e ao qual eu acrescentaria que “o corpo é a pátria do amor”. Algumas mulheres, ao escolherem jasmim absoluto, essências de ylang-ylang ou neroli, não imitam a natureza: reconhecem-na secretamente dentro de si. E há, nessa escolha, uma discrição quase sagrada.

Essa sabedoria dos aromas flutua e deambula nas escolas, nas salas de professores. Quem entra com L’Air du Temps (Nina Ricci, 1948) traz o jasmim de Grasse colhido ao amanhecer — e, com ele, os versos de Eugénio: “Um corpo horizontal, tangível, respira. / Um corpo nu, divino, respira, ondula, infatigável. / Amorosamente toco o que resta dos deuses.” Usa saias longas, fala baixinho e olha em redor com uma paciência que pensa.

Quem veste Chypre de Coty (1917) — bergamota, patchouli, musgo de carvalho — evoca o rigor ético de quem, como Almeida Garrett, acreditava que a liberdade se cumpre no dever. Na escola, é a voz que diz: “Educar é libertar, não domesticar.

A jovem que chega com Narciso Rodriguez for Her guarda no caderno versos de Florbela Espanca: “Quero arder, arder sempre, em chama pura, / Em chama viva, eterna, sem medida!” O seu desejo não se exibe — perfuma-se.

O Shalimar (Guerlain, 1925), com baunilha e incenso, leva-me aos pátios de Tunes. Na escola, é o cheiro daquela que escreve: “Volta a tentar. Acredito em ti.” E, certamente, um verso que exale “o amor é um modo de esperar.

O Féminité du Bois (Serge Lutens, 1992) — amêndoa, violeta, cedro — é a fragrância daquelas que ensinam com o corpo inteiro, assim, como um dia escrevi “creio no beijo / Beijo de sempre / Nascido de nuvem / Floco de sal e sol / Entre lábios soltos / Como cavalos / Ao vento.”

O Chanel Nº5 (1921), abstrato e soberano, pertence a uma Coordenadora que sublinha, em Sophia: “Cá fora à luz sem véu do dia duro / Sem os espelhos vi que estava nua / E ao descampado se chamava tempo / Por isso com teus gestos me vestiste / E aprendi a viver em pleno vento.”

O Eau d’Issey (Issey Miyake, 1992), minimalista como um haiku, é o cheiro da clareza.

O Opium (Yves Saint Laurent, 1977), esse elixir que ousou chamar-se vício, e por isso viu os seus anúncios censurados na China — mas nunca foi banido da pele das mulheres que sabem que o desejo, por vezes, precisa de nome proibido para ser plenamente livre, é o perfume da rebeldia necessária.

O Joy (Jean Patou, 1930), feito de jasmim e rosa de Grasse, é o aroma do dia em que um aluno exclama: “Isto é belo!

E o Mitsouko (Guerlain, 1919) — pêssego, sândalo, melancolia — é o cheiro das pausas entre aulas, quando professores e alunos se reconhecem como seres humanos vivos.

Creio que a beleza é o que permanece. E o que permanece, na escola, não são as notas, os rankings ou os programas. É o cheiro do jasmim de Grasse que alguém usou num dia difícil. É o incenso que, vindo da medina de Tunes, ainda flutua na memória de um gesto. É a certeza de que, mesmo num mundo digital, ainda há corpos que pensam, corações que leem, narizes que amam — e que, por vezes, a mais íntima das flores não precisa de nome, só de ser sentida.

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