À distância da sabedoria – Cartaz para Zetho Cunha Gonçalves

Vai com calma, rapaz. Estás com muita muita pressa, diz-me Zetho rindo pacificamente. Ele sabe que a poesia leva seu tempo. Que um rio nasce no alto da serra e se ocupa do oceano somente quando chega.

Mas o que não tenho é tempo – esse privilégio pequeno-burguês. Eu cresci diferente. Com o despertador das ideias na boca e as mãos como gatilhos a rebentar na aorta do papel. Ontem vai tarde. E calado estive eu trinta anos. Agora quero a prova dos factos, o resultado último do triunfo – meu reconhecimento. Quero títulos, condecorações, meu Camões quero-o duas vezes apenas para ser o primeiro. Quero o meu nome num selo, numa nota, numa taça, quero todos os honoris causa e uma fila de cadeiras na Academia de Letras do Universo. Quero tudo bem guardado no browser da Humanidade. Quero dado e atestado. Sem calo, já-já.

Se a ambição me corrói como chaga de dentro para dentro da alma, serei eu presa da pressa? Terá a pressa seus feitios? Daqui por nada salta-me o coração pela garganta, numa dessas variações pós-modernas de Sísifo, e não o impedirei. A menos que dê com o contrato – minha assinada sentença na passadeira vermelha da História, ombro com ombro com Deus, ou melhor, o passaporte para a eternidade das estrelas, meu próprio céu? Será pedir demais? Diz-me tu, Zetho. Orienta-me. Sem mestre nem pio, acabarei perdido nesta sociedade multimédia, multilingue, multicultural de esclerose múltipla do pensamento. Serei apenas um pobre poeta parido por si mesmo? Uma tentavia de verso? Diz-me de tua justiça: serei louco?

Zetho, tu ouve-me com ouvidos de ouvir, eu não tenho pressa, estou apenas atrasado, entendes? Já impelia teu camarada amigo Saramago que não a tivéssemos, mas que não perdêssemos tempo¹. Que tempo tenho se nada dá certo? Nem um convite, bolas. Nada. Nicles. Zero. Perdão, meu honrado kota, voz da razão de fora de mim, meu kamba irmão de antiguidade recente. Tu és o sábio que não faz das tripas coração. Tu recusas relógio, pois não? O segredo passa por desconheceres as condições do ponteiro? Os meandros do stress, meu sangue primo, conterrâneo de minha mãe, conheço-os eu. Aqui, neste hemisfério, não nos ocupamos de nossos alicerces. O foco está, ao invés, no instante, na “produtividade”. É o savoir faire europeísta. E não te rias. Não rias que o teu riso aplica a mordaz ironia da experiência ancestral. Tu sabes que não devemos ter pressa, pese embora a tenhamos. Por isso, peço-te, do alto dos meus trinta e três anos, que me ensines a primeira parte da oração. Porque tempo sei não o perder. Fala-me, se fizeres favor, do pachorrento Cutato. Jura que só um grande rio inunda devagarinho.

¹Original: “Que não tenhamos pressa, mas que não percamos tempo.”