À descoberta dos mistérios da Praça do Marquês

O jardim de traços românticos, o coreto de ferro, os lagos com jogos de água, as japoneiras com suas belas camélias e os plátanos de folhas verdejantes que embelezam o ponto de encontro, de convívio e de jogo de cartas entre idosos e reformados dão provas de resistência da Praça Marquês de Pombal, no Porto, desde ontem cenário da exposição “Cartada do Marquês no Largo d`Agoa Ardente“.

Ali mesmo no número 94, onde está sediado o Centro de Cultura Politécnico do Porto, as portas estão abertas até 24 de outubro para partilhar com a comunidade uma mostra documental que surge na sequência da exposição “Reservas e Relíquias : a sedução das Coleções”, que ocupou o mesmo espaço entre março e maio últimos.

Agora, com “Cartada do Marquês no Largo d`Agoa Ardente”, dá-se continuidade ao mapa mental que inclui questões históricas, artísticas, museológicas, artísticas para um público heterogéneo, aproximando-se da comunidade e vizinhança, segundo descrição da curadora Fátima Lambert, na apresentação da iniciativa, instigando a curiosidade do público: “Que mistérios subsistem nesta Praça do Marquês?

O Cidadão partiu à descoberta da resposta e da nova exposição na Praça do Marquês, outrora Largo d’ Agoa Ardente (antes designado por Alameda da Aguardente), atualizada a sua toponímia por ocasião do bicentenário da morte de Sebastião José de Carvalho e Melo – homenagem da cidade invicta.

Esta praça, que foi uma das linhas de defesa da cidade nas invasões francesas e durante o cerco do Porto, acolhe o Centro de Cultura do Politécnico do Porto onde uma equipa de investigadores “começou a pensar que seria interessante tentar saber mais sobre a praça e também sobre a própria personagem, desenvolvendo assim a exposição “Cartada do Marquês no Largo d`Agoa Ardente“, segundo Fátima Lambert, em declarações a O Cidadão.

Ao fazer essa pesquisa, obviamente que se percebeu que nem sempre esta praça se chamou Marquês de Pombal – só a partir de 1882, quando há o primeiro centenário da morte do marquês”, realçou a investigadora, explicando que, na verdade, primeiro chamava-se Alameda de Água Ardente, depois Largo de Água Ardente, porque realmente se vendia Água Ardente.

A propósito, saliente-se uma notícia publicada no Jornal “Comércio do Porto” a 16 de janeiro de 1870: “Havia aqui neste largo, como é fácil deduzir, um mercado de aguardente mas também de vendagem de hortaliças. Terá sido alugado para touradas, ativa no séc. XIX, apesar do desinteresse dos portuenses, “contrária à índole e hábitos dos seus habitantes.

A investigação desenvolveu-se a partir de um manuscrito existente no arquivo de um colega da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Adrião Resende: uma carta que tinha sido escrita em 1851 por uma senhora que vivia no Largo de Água Ardente, de nome Maria Maris, em que ela descreve esta praça e histórias do Porto, de meados do século XIX.

Realmente começámos, a partir daí, a tecer um arco temporal que vai desde o início do século XVIII, por causa do marquês de Pombal, mas estendendo até aos finais do século XIX”, realça Fátima Lambert.

Segundo a curadora da presente exposição, o enfoque na figura do marquês procurou também perceber, por exemplo, qual foi o impacto no Norte da iniciativa de demarcar a região vinícola do Alto Douro, entre outras realidades desconhecidas como o Farol da Senhora da Luz, que já não existe como tal, que foi mandado construir pelo marquês.

No fundo, também chamaram a atenção para nós conhecermos melhor os locais onde estamos, onde passamos, e muitas vezes, em termos de toponímia, conhecer melhor os referenciais que atribuem os nomes”, esclareceu a curadora.

Por outro lado, uma vez que se trata de um centro de cultura de uma instituição de ensino superior, a investigação incidiu também no impacto que o marquês teve nas formas de ensino, nomeadamente na Universidade de Coimbra. “É uma época do iluminismo,em que realmente houve muitos escritores, muitos intelectuais, em que foi dado um desenvolvimento também em termos científicos”, acrescentou.

Fátima Lambert contou, ainda, que a investigação abrangeu alguns nomes de poetisas, intelectuais que tinham salões em tertúlias, em que realmente o conhecimento ia sendo desenvolvido. “Enfim, tentando perceber as histórias ocultas, que muitas vezes não nos ensinam, quando estamos no secundário, nem imaginamos, e que podem servir para nós estarmos atentos e olhar também para aquilo que acontece na Praça do Marquês hoje. De outra maneira. De outra maneira, não é?

Que mistérios subsistem nesta Praça do Marquês? Queres saber?

ALBUM DE FOTOS

Texto e fotos | VÍTOR LIMA/OCidadão