A Democracia Armada: Intervenção, Retórica e o Império Disfarçado – Por Amadeu Ricardo

Ao longo do último século, o discurso das democracias ocidentais tem oscilado entre a defesa dos direitos humanos e uma prática sistemática de guerra. Este paradoxo foi bem sintetizada por Noam Chomsky, quando afirmou:
“A função da guerra moderna é manter o mundo num constante estado de reorganização ao serviço das grandes potências.” (Chomsky, Hegemony or Survival, 2003)
Desde o Irão em 1953, passando pelo Chile em 1973 e pelo Afeganistão em 2001, até à Líbia em 2011, os Estados Unidos e os seus aliados envolveram-se directa ou indirectamente em dezenas de intervenções militares, golpes e invasões. Em todos estes casos, os pretextos foram sempre muito “elevados”: proteger a democracia, combater o terrorismo ou impedir as violações dos direitos humanos. Contudo, como defende John Mearsheimer, estratego da política realista:
“Os Estados intervêm não por altruísmo, mas porque acreditam que isso serve os seus interesses estratégicos.” (The Tragedy of Great Power Politics, 2001)
O Caso do Iraque: Guerra sob a Bandeira da Mentira
O Iraque é um exemplo paradigmático. Em 1990, Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Os EUA lideraram uma coligação militar com base na defesa da soberania kuwaitiana. No entanto, como explicou o economista Michel Chossudovsky:
“A Guerra do Golfo foi uma operação cuidadosamente planeada para assegurar o controlo dos recursos petrolíferos e estabelecer uma presença militar permanente no Golfo.” (The Globalization of War, 2015)
Em 2003, nova invasão foi lançada, agora sob o pretexto de que o Iraque possuía armas de destruição maciça – facto que nunca foi provado. O jornalista de investigação Seymour Hersh denunciou, anos depois, os mecanismos de manipulação e de informação que precederam a guerra.
A consequência disto foi o colapso do Estado iraquiano, a emergência do Daesh, e centenas de milhares de mortos civis.
O Colonialismo Contemporâneo: O Caso Israel-Palestina
A fundação do Estado de Israel, em 1948, não foi apenas um desfecho trágico para o povo palestiniano, mas também o prolongamento de uma lógica colonial no Médio Oriente, apoiada pelo Império Britânico e seguidamente pelos Estados Unidos.
Como escreve o historiador israelita Ilan Pappé:
“A limpeza étnica da Palestina foi um plano político deliberado, sustentado pela cumplicidade internacional.” (The Ethnic Cleansing of Palestine, 2006)
A actual ocupação da Cisjordânia, o bloqueio de Gaza e as contínuas violações do direito internacional demonstram como a chamada “única democracia do Médio Oriente” funciona como o posto avançado de uma ordem global baseada em excepções.
O Império sem Nome
A estratégia americana pode ser compreendida dentro do conceito do imperialismo informal, proposto por Michael Doyle, onde as potências exercem o seu domínio através de estruturas multilaterais, finanças, cultura e presença militar – sem a necessidade de colónias formais.
O politólogo Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional, foi claro no seu realismo geopolítico:
“Para manter a supremacia global, os EUA precisam controlar a Eurásia.” (The Grand Chessboard, 1997)
Concluíndo: A Ideologia como Arma
A retórica da liberdade, da democracia e dos direitos humanos tornou-se a capa ideológica de uma arquitectura de controlo e de domínio. Naomi Klein, quando analisa a doutrina do choque, mostra como as crises são instrumentalizadas:
“A destruição do Estado faz parte do plano. As privatizações, o caos, os contratos militares e a dependência tornam-se oportunidades de lucro e de controlo.” (The Shock Doctrine, 2007)
A questão central, portanto, não é se as intervenções ocorrem por erro ou por excesso de zelo. Elas são, e fazem parte de uma agenda global de poder, na qual a democracia é transformada num instrumento – e não num fim.
Quem Manda, Afinal, no Mundo “Livre”?
Por detrás da fachada institucional, operam estruturas de poder que não se submetem a eleições. Grupos de elite como o Fórum Económico Mundial, a Comissão Trilateral ou o grupo Bilderberg reúnem decisores da política, das finança e da tecnologia, longe do escrutínio público. Famílias como os Rockefeller, Rothschild, Walton (Walmart), Koch Industries, bem como dinastias reais (como a Casa de Saud) e das corporações como BlackRock ou Vanguard as quais detêm um poder financeiro superior ao PIB de muitos países.
Como alertou Aldous Huxley:
“O estado de liberdade pode coexistir com a manipulação total da opinião pública, desde que as massas não saibam o que não sabem.”
Os Guardiões da Ordem: ONU, FMI e Banco Mundial – a Trindade da Nova Colonização
Criados sob a promessa de reconstrução e paz no pós-guerra, a ONU, o FMI e o Banco Mundial tornaram-se, na prática, os três pilares de uma arquitectura global profundamente antidemocrática. A Organização das Nações Unidas, com o seu Conselho de Segurança dominado por cinco países com direito de veto, é muito menos uma assembleia de povos do que um clube de potências. Como ironizou Boutros Boutros-Ghali, ex-secretário-geral:
“A ONU só actua quando os Estados Unidos a autorizam.”
O FMI e o Banco Mundial, por sua vez, foram fundados em Bretton Woods não como instrumentos de solidariedade, mas como agências de gestão da obediência. Disfarçadas de ajuda financeira, as suas “condicionalidades” impõem políticas neoliberais, cortes nos serviços públicos e privatizações a governos desesperados – garantindo assim o fluxo de lucros para o Norte global. Joseph Stiglitz, Nobel da Economia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, denunciou:
“A ajuda internacional tornou-se uma ferramenta para forçar países a abrir as suas economias, enquanto os países ricos mantêm os seus próprios subsídios e barreiras.”
O que se apresenta como globalização solidária é, na realidade, uma engenharia de submissão: onde há dívida, há chantagem; onde há crise, há oportunidade – para os mesmos de sempre.
Profecia de um Velho Deus Europeu (Cinismo Cósmico)
“Eu vi nascer o Leviatã moderno. Estava lá quando os homens celebravam a criação da ONU, embriagados com discursos sobre direitos humanos que sabiam que jamais iriam cumprir. Aplaudiam as instituições de Bretton Woods como se elas fossem templos da razão – mas ao contrario, eram jaulas douradas, construídas com dívidas perpétuas e promessas vazias.
Vi povos a aclamarem a democracia liberal como se fosse a nova religião, sem notarem que os altares estavam nas bolsas de Nova Iorque e Frankfurt, e os sacerdotes, esses, vestiam fato e gravata. Assisti ao império a esconder-se por trás de relatórios técnicos, índices de crescimento e cimeiras de Davos. Tudo em nome da liberdade.
E agora, filhos da velha Europa, gritais que querem um mundo verdadeiramente livre? Pois sabei: a liberdade assusta. Um mundo realmente livre será caótico, imprevisível, sem donos – e por isso mesmo, intolerável para os que sempre viveram, e querem viver na sombra do privilégio. Preparai-vos: a liberdade não virá das urnas, mas do colapso. Virá com a ruína das catedrais financeiras, no silêncio dos tanques que já não obedecem e das ruínas das falsas democracias.
Quando isso acontecer, não haverá paz – mas haverá verdade. E a verdade, como estais fartos de saber, nunca foi bem-vinda entre os civilizados.
Neste teatro de sombras, a democracia liberal surge menos como regime de participação e cidadania e mais como uma engenharia de consentimento, moldada pelos interesses dos que realmente detêm o poder.
Mas não tenhais medo, filhos desta terra antiga. Das ruínas erguer-se-ão novas possibilidades. Cada colapso carrega em si a semente de um novo recomeço. Quando as máscaras caírem e o velho teatro se desmoronar, haverá espaço para imaginar outros mundos — mais livres, mais justos, mais humanos. Que neste caos encontremos a coragem de criar e não resistir apenas; que apartir das cinzas possamos forjar novas formas de convivência, onde a verdade não necessite de se esconder e onde, enfim, a liberdade deixa de ser um espectro e se torne no chão firme sob nossos pés.”
Referências:
Chomsky, N. (2003). Hegemony or Survival. Henry Holt.
Mearsheimer, J. (2001). The Tragedy of Great Power Politics. Norton.
Brzezinski, Z. (1997). The Grand Chessboard. Basic Books.
Pappé, I. (2006). The Ethnic Cleansing of Palestine. Oneworld.
Klein, N. (2007). The Shock Doctrine. Knopf.
Chossudovsky, M. (2015). The Globalization of War. Global Research.
Doyle, M. (1986). Empires. Cornell University Press.
Huxley, A. (1932). Brave New World. Chatto & Windus.