A Cultura do paga e não bufes

Desde pequeninos que nos bancos da escola nos ensinaram que saber ler e escrever era o mais importante da vida. No ensino secundário diziam-nos que a escrita e o livro eram Cultura. Na Universidade de Letras achavam que devíamos começar a escrever um livro. Na verdade, o mundo da leitura, felizmente, enraizou-se na maioria das pessoas, apesar de hoje em dia, as redes sociais estarem a degradar a mente dos jovens e a retirá-los da leitura de um livro.

Conheci vários escritores e aprendi com eles a saber interpretar o mundo que nos rodeia. Aprendi que somente se pode escrever se se ler muito, mesmo muito. A minha profissão de jornalista com mais de 55 anos nunca me levou a pensar em escrever um livro.

Um camarada de longa data andou dez anos a convencer-me para escrever um livro. Sempre lhe disse que não era escritor, mas no fim lá resolvi editar um livro biográfico porque a minha vida tinha inserido estórias inimagináveis. Ao chegar a velho continuo a escrever para jornais e tomei o gosto de escrever livros. Tenho na gaveta quatro livros, quanto a mim, de grande interesse público.

E na gaveta por que razão? Simplesmente porque não tenho capacidade gráfica e financeira para editar sozinho as obras escritas, como muitos escritores já optaram para publicar as suas obras. Contactei várias editoras e a minha alma ficou parva. As editoras quase que já são mais que as mães. Solicitam que enviemos o que escrevemos. Analisam. Gostam e prontificam-se a apresentar a escrita ao público leitor. Mas como? Pagando. Pois é, o escritor tem de pagar do seu bolso, e não é pouco, para ver a sua obra nos escaparates. Ou então, pôr-se em campo a mendigar um patrocínio de alguma instituição que pague o pecúlio desejado pela editora.

Assim, parece-me que passámos a ter novos escritores porque são ricos. No livro que publiquei, a editora comportou-se naquele estilo conhecido popularmente “paga e não bufes”. Paguei a edição com o dinheiro depositado por amigos que quiseram adquiri-lo antecipadamente, venderam-se imensos exemplares e passados quatro anos a editora nem o contrato cumpriu. Nunca me informou sobre a relação de vendas e até hoje nem a percentagem de direitos de autor que era obrigada a pagar-me contratualmente, pensou em realizar. Nem um euro ainda me foi entregue e deixou de responder às minhas missivas. Uma editora para esquecer.

Compreendemos que as editoras têm de ter o seu lucro pelo trabalho realizado. São merecedoras disso, mas têm de ser sérias. E há algumas que o são. Também mantive contactos com uma editora que apresentou seriedade e profissionalismo. No entanto, como o livro é Cultura, lá está o busílis da questão. Pagar à editora é fundamental. É a cultura do dinheiro para que a escrita seja pública. Ou seja, paga e não bufes…