A crónica que ninguém pediu, mas devia – Por Miguel Correia

Mais uma semana em que luto contra o prazo para envio da crónica.

É algo de inexplicável para as outras nacionalidades, mas justificável com o facto de ser português e, deixar tudo para a última – como é nosso apanágio. Porque, analisando os sucessivos esforços de caracterização do povo lusitano, não se consegue delinear uma justificação válida para o sangue que nos corre nas veias e que se perde algures antes de irrigar o cérebro!

É impossível ou irracional caracterizar os disparates e imprudências que são cometidas neste cantinho florido nos confins da Europa – agora ponto de passagem obrigatório dos roteiros turísticos internacionais. Não somos propriamente um laboratório de grandes inventores, nem um gigante económico, mas somos, uma incubadora de mentes desenrascadas. A nossa realidade parece ser escrita por argumentistas amadores, com cada um a dar a sua ideia, sem ideia de qual é o tema principal. O telejornal é o espelho fascinante da nossa condição. Começa com a reportagem sobre a crise da habitação. Dramática, séria, com intervenção de comentadores especializados. Cinco minutos depois, aparece o Ti Joaquim, de 80 anos, a mostrar uma abóbora gigante em forma de coração. E pronto, o problema da habitação foi-se…

A nossa sociedade, ao contrário da francesa, é de uma quietude assustadora. Nada nos incomoda, ao ponto de vir para a rua fazer (ou participar) em manifestações. Há sempre coisas marcadas a essa hora! Contudo, há sempre um burburinho constante sobre como “isto “ está e o que deve ser feito, sobre quem deve fazer e, claro está, o famoso “lá fora é que é bom!”. E nada mais. O cúmulo da inércia: uma nação à espera que alguém se indigne na vida, desde que não sejamos nós a começar.

Tal como acontece no assalto à carteira: sempre a lamentar os preços dos combustíveis, dos bens essenciais, da inflação, do vestuário, mas depois, sem dar por ela, lá se esgota o Pavilhão Atlântico para assistir ao concerto de um artista que ninguém conhece, mas dizem que é bom. Uma espécie de masoquismo económico, onde o Tuga, com a mente em “modo-distraído”, é alvo perfeito para qualquer engodo e chamadas spam.

É a nossa forma de ser e talvez até o nosso encanto. Talvez um dia, entre um café e uma piada, consigamos ser mais racionais e deixar de ser o grande romance de mil páginas, onde cada capítulo parece ter sido escrito por um autor diferente, sem que ninguém saiba qual o enredo original. E, quem sabe, se o “depois vemos isso” se torne no “vamos resolver isto”.