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Domingo, Fevereiro 25, 2024

À conversa com o meu avô: Às vezes, caminhávamos em silêncio e eu entendia o teu olhar sobre o meu. Estendia a minha mão para a guardares na tua… – Por Rosa Fonseca

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

Iniciávamos as tardes de domingos muito acalorados. Para nós era sempre verão, avô! Mesmo quando vestias o teu casaco daquela cor que nunca defini, de uma textura indecifrável, mas que me enchia os olhos quando chegavas. Parecia sempre quente, como se me quisesses agasalhar contra todos os frios. Vinhas sempre com um sorriso pendurado nos lábios e, nos bolsos, escondias os rebuçados multicolores, de frutos cítricos.

Antes de os fechares na mão, já lhes ouvia o restolhar do papel transparente. Gostava de adivinhar em que mão os escondias. E se eu não acertasse, por magia, apareciam. Gostava de me empoleirar nos teus ombros e ficava por lá a espreitar-te os dias.
Dentro dos meus braços prendia o teu pescoço, e o aroma da água-de-colónia, que a mãe te dava pelo Natal, enchia o meu abraço.

Ah, por falar em Natal, nunca te disse que quando o pensava, via-o em ti. Na figura do Pai Natal, só não tinhas barbas brancas, mas inventava-as no teu rosto redondo e olhar meigo.

Ficávamos por ali sentados na soleira da porta, até rumarmos ao Estádio do Mário Duarte, para mais um jogo do nosso Beira-Mar. Pelo caminho, mimavas as estórias que saiam como flocos de algodão doce, para espanto dos meus olhos.

Aproveitavas o ritmo dos nossos passos, pouco apressados para me dares alguns recados de cautelas; baixavas-te, fitavas o meu rosto e anunciavas que nunca saísse de perto de ti, que, no jogo, estaria muita gente – quase te ouço com a voz firme e ao mesmo tempo tão adoçada como a minha boca pelos rebuçados.
Ao teu lado, tentava alinhar o meu passo com o teu – com uma enorme vontade de ser grande, como tu. E lá entrávamos pelo gigante portão verde de ferro que separava o Estádio, do Parque da cidade.

Lembras-te, neste Parque, onde tantas vezes me passeaste e ensinaste a andar de bicicleta. Onde os patos do lago nos vinham comer à mão o pão que levávamos.

Cumprimentavas todas as pessoas e eu, cá de baixo, do meu mundo pequenino, erguia o olhar para lhes acenar, como se o teu mundo fosse um bocadinho meu.

É domingo e joga o clube do nosso coração. Naquele tempo, aos domingos, o ponto de encontro era ali, no futebol. Hoje a cidade mudou e as pessoas não vivem a alma do clube, como tu ou como eu.

E as bancadas ganhavam vida através das vozes harmónicas – “vaiii…vaiii…e marca…surge o Goloooo!!!!!” – que algazarra e alegria quando o Almeida marcava golo ou o Zé Domingos fazia uma das suas grandes defesas.

E levantavas-te efusivamente, mãos no ar e eu seguia os teus gestos, erguia-me entusiasmado e lá me caía o boné amarelo com o emblema do clube.

Era sempre assim, uma fervorosa alegria e todas as bocas ganhavam vida. Era aqui que eu me sentia a crescer, não caber na camisola de riscas que a mãe tricotava e tinham sempre uma risca amarela.

Às vezes, caminhávamos em silêncio e eu entendia o teu olhar sobre o meu. Estendia a minha mão para a guardares na tua…

Avô, continuo a ser sócio do clube, fizeste-me sócio dois dias após ter nascido. Numa segunda feira. Guardo as insígnias do clube junto às memórias que tenho de ti.

Os domingos ainda são uma partida de futebol.

Do teu neto

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