A classe política… ou a falta dela – Por António Duarte

Todos assistimos ao dramático espetáculo dos fogos florestais, que todos os anos por esta altura nos assombram, criando nas nossas mentes a perceção da inevitabilidade destes acontecimentos, mas não me parece que assim seja.

Este é um de muitos acontecimentos que se passam no nosso país, que podiam ser resolvidos ou minorados com prevenção, com ação e com decisão, mas para isso era necessário ter políticos a altura dos acontecimentos, e não meros atores que lutam por votos e que as suas ações não têm como objetivo resolver problemas, mas única e exclusivamente captar a simpatia e os votos do povo, e para isso mentem e prometem o impossível.

A marca de água desta nossa classe política está no comportamento dos deputados que enchem a Assembleia da República, que tudo fazem para subtrair ao erário público, ou seja, ao bolso dos portugueses, todos os euros que consigam em benefício próprio, fazendo para isso o que seja necessário.
Quem não está lembrado da vergonha alheia que sentimos pelos deputados que deram as moradas da sua residência o mais longe possível de Lisboa, para receberem ajudas de custo pelo facto de estarem “deslocados” da área de residência.
Quem não está lembrado da vergonha alheia que sentimos pelos deputados que disseram que fizeram viagens que nunca fizeram só para receberem as ajudas de custo porque se tinham deslocado em trabalho.
Quem não está lembrado da vergonha alheia que sentimos quando vimos as imagens de uma deputada a pintar as unhas na Assembleia da República enquanto decorriam os trabalhos.
Quem não está lembrado da vergonha alheia que sentimos quando soubemos que um deputado roubava malas nos aeroportos.

Estas são algumas das situações que vieram a público, mas tantas outras deve haver que nunca chegaram ao nosso conhecimento. O que é que aconteceu a estes deputados que de forma tão vergonhosa mancharam a reputação que aquela Assembleia deveria ter? Não aconteceu nada.

Eu esperaria que os seus pares os expulsassem da Assembleia porque não admitiam partilhar o mesmo espaço com quem, de forma tão vil, viola a ética a que deveriam estar obrigados e, no caso dos benefícios pecuniários, exigissem a devolução de todos os cêntimos que tinham recebido mas, em vez disso, receberam umas palmadinhas nas costas e um “conselho” para que não voltassem a fazer.

Quando, por alguma razão, o Estado se engana e nos paga um subsídio a que não temos direito, somos obrigados a devolver essa verba. Porque é que o mesmo não acontece aos deputados, porque não têm vergonha.
Quando qualquer um de nós tem um emprego fora da sua área de residência, paga as deslocações e o alojamento e não tem qualquer ajuda de custo. Porque é que o mesmo não acontece aos deputados, porque não têm vergonha?

Qualquer pessoa pinta as unhas antes de ir para o emprego, porque se é apanhada a pintar as unhas na hora de serviço é despedida. Porque é que o mesmo não acontece aos deputados, porque não têm vergonha.

Qualquer pessoa que roube o que quer que seja, vai presa. Porque é que o mesmo não acontece aos deputados, porque não têm vergonha e têm imunidade.

Por que que é que há deputados que não se reveem em nenhum destes comportamentos e se mantêm na Assembleia da República, partilhando o mesmo espaço com aqueles que vão traindo a confiança que o povo lhes conferiu? Porque não têm vergonha e o salário no fim do mês sabe muito bem.

Tudo isto não tem a ver só com a vergonha, tem a ver sobretudo com a falta de classe, com a falta de princípios, com a falta honra, com a falta de tudo aquilo que leva todos e cada um de nós, a cumprir com as responsabilidades que assumimos para desempenhar qualquer cargo.

Esta “classe” política nunca vai resolver os problemas do povo que os elege porque o seu foco não está nos problemas, está na manutenção do poder, das mordomias que a política atribui a quem não tem vergonha de receber pensões vitalícias de milhares de euros.
Com esta gente, que são “lambe botas” do povo, que é aquilo em que se tornaram os nossos políticos de forma a perpetuarem-se no poder, nunca iremos ter os nossos problemas resolvidos nem a melhoria de vida que nos prometem constantemente.

PS: esta crónica foi escrita antes da tragédia do Elevador da Glória, a reação dos políticos a esta tragédia vem confirmar tudo o que o que a crónica quer transmitir: os nossos políticos não prestam, não têm sentimentos nem princípios.
Neste caso do Elevador da Glória, parecem abutres a “bicarem” os cadáveres, quer os políticos da oposição na Câmara de Lisboa, quer os políticos que dirigem a Câmara, sem qualquer respeito pelos mortos, pelos feridos e pelas suas famílias, que deveriam estar recolhidas no seu sofrimento e não “levarem” todos os dias com esta gentinha a clamar por culpados tentando tirar benefício com a tragédia.
Como um dia disse Sá Carneiro “A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”