Há semanas em que o castelo de cartas do hype desaba para dar lugar ao cimento armado da realidade.
Se há coisa que repito à exaustão no podcast «IA&EU» é que a tecnologia só importa quando desce do pedestal das demonstrações ensaiadas e aterra na lama do nosso quotidiano. E os últimos sete dias foram exatamente isso: um banho de lama e pragmatismo.
Enquanto uns choram a morte de projetos megalómanos que prometiam revolucionar o cinema, outros estão silenciosamente a dar o controlo do vosso computador a um agente invisível ou a enfiar chips em robôs que limpam o chão. A fase das promessas acabou. Entrámos oficialmente na era da execução. E, como vão perceber, quem tenta ser o dono de tudo acaba a não ser dono de nada.
Peguem no café. Vamos dissecar as vitórias, os falhanços e as polémicas de uma semana em que a ficção científica levou um banho de realidade.
Anthropic: O Controlo Remoto e a Derrota de Orwell
A Anthropic teve, sem sombra de dúvida, a melhor semana do ano. Comecemos pela tecnologia: lançaram uma funcionalidade que dá ao Claude poderes de controlo remoto (remote control use).
O que é que isto significa na prática? Significa que podes estar no autocarro, sacar do teu telemóvel e dizer: “Claude, entra no meu computador lá de casa, abre o Excel dos fornecedores, cruza com as faturas do mês passado no portal das finanças e envia um email com o resumo à contabilidade”. E ele fá-lo. Ele move o rato. Ele clica. Ele escreve. A inteligência artificial deixou de ser uma caixa de texto no ecrã para se tornar nas tuas mãos virtuais. É brilhante, é incrivelmente útil para o mundo empresarial, e assustador o suficiente para exigir uma segurança de ferro.
Mas a vitória da Anthropic não se ficou pelo software. Lembras-te do braço de ferro com o Departamento de Defesa dos EUA? Pois bem, um juiz federal acabou de bloquear a tentativa do Pentágono de banir a Anthropic de contratos governamentais por causa dos seus guardrails éticos. O juiz chamou à tentativa do governo “Orwelliana”: uma bofetada judicial épica na cara do complexo militar-industrial. A Anthropic provou que é possível criar a IA mais capaz do mercado sem ter de vender a alma aos generais. A segurança teve a sua maior vitória em tribunal até à data.
OpenAI: O Enterro do Sora e a Ascensão do “Spud”
Entretanto, em São Francisco, a OpenAI deu uma valente facada na sua própria máquina de hype. O Sora, o gerador de vídeo hiper-realista que, há um ano, fez Hollywood tremer de medo e a internet babar-se de espanto… foi essencialmente arrumado na gaveta.
A OpenAI está a abrandar (ou mesmo a encerrar) o desenvolvimento do Sora para priorizar um novo projeto misterioso com o nome de código ‘Spud’ (sim, “batata”).
Isto é a definição perfeita de anti-hype. Como tenho vindo a dizer: gerar vídeos de cães a andar de skate na lua é giro para o Twitter, mas consome uma quantidade obscena de capacidade computacional (GPUs) e não resolve nenhum problema crítico de produtividade das empresas Fortune 500. A OpenAI bateu na parede da viabilidade económica. Perceberam que o modelo de negócio da IA não está no entretenimento caro, está nos agentes corporativos que fazem o trabalho chato. O Sora morreu para que a “Batata” pudesse viver. A realidade afinal morde.
A Estratégia da Apple e o Pesadelo da Google
Se a Google achava que tinha o monopólio da pesquisa no iPhone garantido para o resto da vida com o Gemini, o Tim Cook acabou de lhes trocar as voltas.
A Apple anunciou o “Handshake”, uma nova arquitectura que abre a Siri a qualquer inteligência artificial de terceiros.
Isto é a mercantilização (commoditization) absoluta dos LLMs. A Apple percebeu que não precisa de ter o melhor modelo do mundo; basta-lhe ser o porteiro. Queres que a tua Siri use o Claude para programar? Podes. Queres que use o Grok para escrever? Podes. Queres que use o ChatGPT para… bem, seja lá para o que o GPT serve? Podes.
Ao abrir as portas, a Apple transforma a Google, a OpenAI e a Anthropic em meros “fornecedores de peças” intercambiáveis. É uma jogada de mestre que destrói as vantagens exclusivas que a Google tanto lutou para manter.
xAI e China: A Guerra do Hardware Físico
Enquanto o software se digladia, a verdadeira guerra trava-se no físico. O Elon Musk (xAI) não tem tempo para brincar aos vídeos. Anunciou o projeto ‘Terafab’, um investimento titânico de 25 mil milhões de dólares na construção de fábricas de chips e infraestrutura de IA. Musk percebeu que quem não controla o silício e a energia, é apenas um inquilino na internet dos outros. 25 mil milhões não é hype; é alcatrão, betão e semicondutores.
E por falar no mundo físico, a China deu mais um salto. Enquanto nós, no Ocidente, andamos maravilhados com agentes a mexer no nosso rato do computador, a empresa chinesa Ecovacs lançou o Bajie, um robô doméstico alimentado pelo OpenClaw (o agente de código aberto que tem estado nas bocas do mundo). A IA na China já saiu do portátil e está na sala de estar a dobrar a roupa e a evitar os legos das crianças. A velocidade de implementação deles em hardware envergonha o Ocidente.
A Resistência Humana: A Wikipedia Diz “Não”
Para terminar com uma nota de esperança na sanidade humana, a Wikipedia avançou com uma proibição formal: nenhum artigo pode ser escrito ou gerado por Inteligência Artificial.
Numa era em que a internet está a ser afogada por slop sintético e conteúdo reciclado sem alma, o maior repositório de conhecimento livre da humanidade traçou uma linha vermelha. A Wikipédia percebeu que a verdade e o consenso humano exigem fricção. Exigem que alguém vá ler o livro, verifique a fonte e escreva a frase. Confiar o registo da nossa História a modelos estocásticos que inventam factos seria o suicídio do conhecimento. Um aplauso de pé para eles.
Conclusão: O Rato e a Batata
Esta semana foi uma lição de maturidade. A IA é uma ferramenta extraordinariamente poderosa SE a souberes usar para o que interessa. O Claude a mexer no teu rato para adiantar trabalho é utilidade real. O robô Bajie a arrumar a casa é utilidade real.
Por outro lado, o Sora a fazer vídeos bonitos revelou-se um poço de dinheiro sem fundo. A tecnologia está a separar o trigo do joio. Se a tua empresa apostou no hype vazio das demonstrações vistosas, prepara-te para o choque. Se, pelo contrário, apostaste em integrar agentes que sujam as mãos nos teus processos maçadores, o futuro começou agora.
E não se esqueçam: até a Wikipédia percebeu que há coisas que a máquina não deve fazer. A inteligência é artificial, mas o bom senso tem de continuar a ser humano.
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Até para a semana. E cuidado com quem deixam mexer no vosso rato.
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Artigo publicado simultaneamente n’ O Cidadão e no substack do autor
Autor | Formador Psicossocial | Consultor
Criador de Conteúdos | Especialista em Inteligência Artificial














