Lítio no Barroso é um “elixir ecológico”? – Por Amadeu Ricardo

Emanuel Proença declara com uma a frieza de … que o Lítio no Barroso é um elixir ecológico – uma verdadeira piada de mau gosto.

Num cenário em que Portugal se debate num verdadeiro circo de horrores – crise generalizada e eleições que mais parecem um espetáculo de tragédia do que de democracia – a declaração de Emanuel Proença, CEO da Savannah Resources, é o cúmulo do absurdo. Alegar que o projeto de Lítio no Barroso “não terá impacto negativo no ecossistema” é uma afronta descarada à realidade, um insulto à inteligência, que mais parece fruto de desinformação deliberada do que de uma análise séria.

Que informação temos?

Apenas a brutal verdade: qualquer empreendimento de extração de minério em grande escala é uma receita garantida para o desastre ambiental. Água contaminada, solo em frangalhos, biodiversidade dizimada e a saúde das populações locais jogada às traças – tudo isso é o legado implacável de uma ganância que se reveste de arrogância e desdém.
Como, então, um estudo pode afirmar que não há riscos para o meio ambiente e para a saúde?

Se o estudo que suporta essa declaração foi encomendado pela própria empresa ou realizado sem a devida isenção científica, toda a sua credibilidade já nasceu comprometida. Há um histórico global de avaliações ambientais feitas sob medida para favorecer empreendimentos, minimizando impactos que, e na prática, tornam-se evidentes com o tempo.

Além disso, o discurso corporativo muitas vezes apoia-se em “particularidades” para sustentar uma falsa sensação de segurança.
O que significa exatamente “não terá impacto negativo”? Impacto zero? Impacto controlado? Impacto mitigável?
Todas estas expressões são vagas e são frequentemente usadas para atenuar a percepção pública dos reais efeitos ambientais de um projeto.

É fundamental que a população local, ambientalistas e especialistas independentes questionem, exijam transparência e tenham acesso a todos os estudos detalhados. A mineração de lítio pode até ser uma necessidade para a transição energética, mas isso não pode ser feito à custa da destruição ambiental e dos riscos para saúde pública que são sistematicamente ignorados ou minimizados.
Vamos olhar e refletir.

Impacto Ambiental:

Consumo Excessivo de Água: A mineração do Lítio em Salares, como no Chile e na Argentina, utiliza grandes volumes de água, afetando as comunidades locais e os ecossistemas frágeis. Segundo um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a extração de lítio pode consumir até 500 mil litros de água por tonelada de lítio extraído.

Contaminação do Solo e da Água: A fuga de químicos como ácido sulfúrico e carbonato de lítio polui os rios e os solos, afectando a biodiversidade e a agricultura local. Estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Alemanha (UFZ) indicam contaminação significativa nas áreas de mineração na Bolívia e Argentina.

O Impacto Social e os Conflitos:

Deslocamento das Comunidades: Em países como a Bolívia, Chile e Argentina, os povos indígenas denunciam a perda de acesso à água e os efeitos na produção agrícola. Relatórios da Amnesty International destacam os conflitos entre empresas e as comunidades locais devido à exploração sem a respectiva consulta prévia.

CONVÉM PENSAR QUE:

Qualquer empreendimento de mineração em grande escala transforma a natureza num autêntico campo de batalha: água contaminada, solo devastado, biodiversidade em ruínas e populações locais à mercê de um massacre ambiental digno de filme apocalíptico. E se tal postura não é ousadia – para não arranjar um adjetivo que me apetecia –, é pelo menos o retrato perfeito de uma arrogância delirante, que agrava ainda mais a miséria de um país em crise.

Dizer que a extração não trará impactos negativos é como afirmar que uma bomba atómica é só uma pequena faísca de progresso – um insulto brutal à realidade, e inteligência colectiva.