27 . Falta uma: o instante antes do recomeço

Cheguei a um lugar que, há uns meses, parecia distante demais para acreditar. Foram onze sessões de quimioterapia — onze capítulos de um percurso feito de cansaço, coragem, dúvidas e uma força que eu próprio desconhecia. Agora, resta apenas uma.

É estranho olhar para este quase fim. Não há euforia fácil, nem certezas absolutas. Há, sim, uma pausa diferente — como se o corpo e a mente estivessem a aprender, aos poucos, a respirar fora deste ritmo de luta constante. Durante tanto tempo, vivi de etapa em etapa, de exame em exame, de tratamento em tratamento. E agora, quando falta apenas mais um passo, surge uma pergunta nova: o que vem a seguir?

Não sei ao certo. E talvez seja essa a maior verdade deste momento.
Mas sei isto: cada sessão não foi apenas resistência, foi transformação. Cada dia mais difícil trouxe consigo uma espécie de clareza, sobre o que importa, sobre quem fica, sobre aquilo que levamos connosco mesmo quando tudo parece incerto.
E há algo que já ninguém me tira: o tratamento cumpriu a sua função. E isso, por si só, já é motivo de celebração, uma vitória profundamente real.

Falta uma. Só uma.
E não é apenas o fim de um ciclo médico. É o início de uma nova forma de estar — ainda com medo, ainda com dúvidas, mas também com uma consciência mais profunda da vida, do tempo e daquilo que significa continuar.

Se cheguei até aqui, não foi por acaso. E o que vier a seguir, seja o que for, já não me encontra no mesmo lugar de antes.