25 de Abril – A data que devia unir os portugueses

A maioria dos cidadãos portugueses, a partir de 1970, estava cansado de Guerra Colonial, repressão, “eleições” falsificadas, censura aos livros e a outras obras de arte. Aos jornais e a todas as formas de comunicação. À mulher tratada como “coisa”. À proibição de associação. Da PIDE/DGS. Dos polícias de costumes. Em suma, aos muitos deveres e a (muito)  poucos direitos.

Também os países europeus livres criticavam, de forma incisiva, o regime português.

Nas Colónias, a carnificina afetava, inexoravelmente, os jovens portugueses. E as forças nacionalistas africanas, apoiadas por Estados Unidos e Rússia, iam tendo cada vez meios mais sofisticados para atacar os militares portugueses.

E os oficiais das Forças Armadas entraram em rota de colisão com o governo, por causa da perda de regalias, com a introdução nas chefias de oficiais milicianos. Cada vez havia menos gente disposta a combater e muitos jovens fugiam do país.
Nas universidades, principalmente a partir de 1969, vivia-se um clima de “cortar à faca”, tendo o regime de recorrer a “gorilas” para controlarem e reprimirem os estudantes. Os do “Contra”, ou eram presos ou enviados para a guerra.

Conspirava-se em todas as casas em que a literacia política e intelectual era mais elevada.
E os oposicionistas assumidos, “cheiravam” o fim do regime.

Até Kaúlza de Arriaga, um General portuense com ideias extremistas de direita, criticava as hesitações de Marcello Caetano e ameaçava atuar.

Não esqueçamos, também, que em dezembro de 1972, a Assembleia Geral da ONU reconheceu a “legitimidade da luta armada contra Portugal em África.” Em 1973, a Guiné-Bissau proclamou, unilateralmente, a independência.
No início de 1974, António de Spínola, um respeitado General, publicou o livro “Portugal e o Futuro”, no qual defende uma solução reformista e não armada para a Guerra Colonial.

Só o partido único português – a Ação Nacional Popular, sucessora da União Nacional – os apaniguados “cegos” do regime, os que tinham benesses por servi-lo, latifundiários alentejanos, a PIDE/DGS e a Legião Portuguesa iam segurando um tronco cada vez mais inclinado, desgastado. Podre mesmo.

Depois de tocar a “Grândola Vila Morena”*, às 00:20, do dia 25 de abril, no programa Limite, da Rádio Renascença, em fita pré-gravada, após Leite de Vasconcelos, o locutor, ter lido as primeiras estrofes da cantiga de José Afonso, não havia como fazer marcha atrás. Os capitães, por muito que quisessem, apenas, resolver as suas condições salariais e de carreira, não o podiam concretizar com o Governo vigente. E com o apoio da população, só havia um caminho – pôr fim a um sistema político repressivo com 48 anos.

Depois da rendição do Ministro do Interior, César Moreira Baptista, foi a vez do Presidente do Conselho, que exigiu a presença de um General e não um oficial inferior. Assim foi – O General António de Spínola “recebe “ o poder das mãos de Caetano e o regime, por fim, cai.
Nos primeiros comunicados do Movimento das Forças Armadas (MFA), difundido pela rádio, a população é informada de que o Estado Novo seria substituído pela liberdade política e social, por um regime democrático e eleições livres.

E é este momento que refiro no título deste Editorial. O momento de união. O fim da ditadura. Que merece ser comemorado e nunca esquecido.

O que veio a seguir, foi a ”ressaca” normal de um Golpe de Estado. As vinganças políticas, os ajustes de contas, as questões mal resolvidas. Foi um ano de  PREC, esse nome que causa dores de cabeça a muita gente. Foi a consequência. Impossível de travar, face a quase 50 anos de ditadura. Podia ter acontecido uma guerra civil!

Obviamente, houve presos políticos depois do 25 de Abril até 25 de novembro de 1975. Primeiro, os agentes da PIDE/DGS e informadores, os indivíduos envolvidos com a intentona de Spínola no 28 de setembro e, também, os alegados sabotadores às iniciativas da esquerda e extrema-esquerda, forças dominantes nessa época, com o PCP e Otelo Saraiva de Carvalho na vanguarda. Até os revolucionários de extrema-esquerda, Fernando Antunes e Isabel do Carmo e vários militantes do MRPP foram presos, Aliás, este partido político foi impedido de concorrer às eleições de 1975. Danos colaterais de um Golpe de Estado.

Nada parecido com outras revoluções – Rússia, Irão, Argentina, Chile, Paraguai, Cuba, por exemplo. Nestes países, sim, desfechos trágicos para milhões de pessoas. Milhares mas prisões durante outro meio século, fuzilamentos, perseguições permanentes. Terror.

Os portugueses foram poupados a desgraça semelhante. O mérito foi das ações do MFA e do realismo de Marcello Caetano; percebendo o risco, rendeu-se, para não haver um “banho de sangue” e ao povo português, claro. que saiu em massa para as ruas no apoio aos militares.

Foi esse momento, quando Spínola “recebe” a rendição do Presidente do Conselho, que abriu as portas para os portugueses poderem decidir o seu destino, em eleições livres. Permitiu-nos o debate, sem medo dos “ouvidos das paredes”. Transformou um país do “orgulhosamente sós”, “cinzento”, triste, rural, onde o medo era rei, numa nação moderna, livre e democrática.

Pode haver melhor sistema político no futuro? Não sei. Mas este, em que vivemos, é o melhor desde a implantação da República, pelo menos.
Uma data que devia unir os portugueses e não dividi-los. Porque foi a que derrubou a ditadura. Algum cidadão será feliz quando vive sob repressão?
Não deixemos, pois, morrer a LIBERDADE. Viva o 25 de Abril!

*O locutor da Rádio Renascença, Leite Vasconcelos, no programa “Limite”, leu os primeiros versos da letra e pôs a música a tocar; o produtor do programa foi Carlos Albino e Manuel Tomás, o sonoplasta. Justo apresentar a equipa dessa noite que preparou a senha da revolução, escolhida pelo capitão Almada Contreiras, do MFA.