24º Festival Intercéltico de Sendim – Sempre a atrair e encantar

Não deixou de ser prazerosa a nossa presença no festival; porém, algumas estórias interessantes nesta vigem até Miranda do Douro.

Vamos lá então ao relato. 

A Viagem
O repórter de O Cidadão partiu pelas 15:00 do Porto e chegou a Sendim pelas 20:00! Pelo meio da viagem, duas mudanças de autocarro, ou seja, uma viagem de cerca de cinco horas, repartida por três autocarros!

O 1º Dia – 1 de agosto de 2025

A aurora e génese do festival deu-se na Casa da Cultura, com a exposição “A Capa de Honra Mirandesa”. “Rebenta a Gaita” (gaiteiros de Sendim), fizeram uma curta apresentação e estiveram na arruada, pelas ruas da localidade.

Direitos Reservados

Por volta das  22:30, no palco mostraram ao público presente, toda a entrega musical, a uma causa muito nobre! Seguiu-se a “Orquestra de Foles” que fez uma retrospetiva
muito interessante sobre os gaiteiros mais importantes em Portugal. Estamos a falar de: Joaquim Roque, Arménio Rodrigues, Carlos Gonçalves, Toni das Gaitas, Ti Carriço, Américo Rodrigues, Mário Carramão, entre outros…
Ouvimos as canções: Alvorada, Pastor, Mourinheira, Ronda Morena, Fandangos, Carriços, Sesimbra, Adeus Sarilhos, Deilão, Carvalhesas e Ronda da Noite.
Em palco estiveram: Hugo Ramalho, Lucília Castanheira, João Falcão, Duarte Alves, Tiago Morais e Carlos Santos. Uma interessante combinação, onde ressalvo a harmonização das gaitas o que valorizou a sua execução. Na percussão estiveram: João Campos no bombo e André Fonseca na caixa. André soube explorar de uma forma peculiar e intrínseca, conseguindo gerar, alguns ritmos inovadores.

Num ambiente familiar, onde ficámos com a sensação que todos se conheciam, depois de tantos anos fiéis ao festival!
Os “Breo”, vieram da Galiza e as combinações entre o violino e a concertina, a base harmónica da guitarra e a gaita que ia alternando com a voz feminina, deram-nos a conhecer a alegria e franca comunhão com que compareceram musicalmente na festa…
O recinto do festival, contou ainda com: Tendas de Livros e Discos, Artesanato e o bar “Sendintercéltico” que refrescou as gargantas, de grande parte o público!

O 2º Dia – 2 de agosto de 2025

A Casa da Cultura, pelas 15:30 recebeu um concerto por Manuel Guimarães no sintetizador e Guilherme Carmelo na guitarra elétrica. Este duo escolheu quatro temas entre Trás-os-Montes e o Alentejo.
Miguel Torga escreveu: “Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora”.

Coube ao Alentejo as “honras da casa”, com a apresentação do primeiro tema “Borboleta Mensageira”. A guitarra pejada de efeitos sonoros, efeitos comandados pelo pedal de volume, criou uma “malha”, com incidência na sétima maior (Si), em escala de dó (C). O teclado “vestiu-se” com a sonoridade de timbales de orquestra, enquanto a mão direita procurou sonoridades nas marimbas e de uma forma “quase” tímida, o tema principal fez-se ouvir…”...Notícias do meu amor, que aqui fico chorando, borboleta mensageira, a voar por todo o lado”.

Trás os Montes pleiteou e fez-se ouvir pela história de D.Ancra que morreu de desgosto, por não casar com o seu amado João!
Um sintetizador com som de sintetizador, sim! O sintetizador também tem sons próprios e peculiares! Um guitarra com uma sonoridade impercetível, fez crescer a sonoridade, como se estivéssemos incorporado “fermento” à música! Em poucos minutos, fomos surpreendidos por uma sonoridade romântica, talvez a fazer lembrar o amor não correspondido…Aproxima-se um balanço que incita à dança, a fazer esquecer o infortúnio de D. Ancra e num último momento musical, o tema termina na dominante (5º grau musical de uma escala).

E de volta ao Alentejo. a primeira estrofe dizia: “Fui-te ver estavas lavando, fui-te ver estavas lavando, no rio sem sabão, lavas com águas de rosas, fica-te o cheiro na mão”. A guitarra preferiu “disfarçar-se” com sons incomuns, enquanto se ouvia no fundo, uma base de percussão. O teclado não se deixou ficar e procurou novas sonoridades, enquanto a guitarra em “single note” assumiu finalmente, o seu timbre intrínseco e inerente! O tema regressou, acompanhado pela percussão e as oitavas no teclado, anteciparam um final feliz.

E vamos até ao último tema do mini-concerto, com o regresso a Trás os Montes!
“Levanta-te Mineta, de doce dormir , que está um pobre à porta, num lindo pedire. Dá-le uma esmola, ó pobre ceguinho, dá-le o teu pão e dá-le o teu vinho…”.

O som de guitarra voltou à Casa da Cultura e expões o tema. O sintetizador juntou-se com sonoridade de flautas mirandesas… A melodia clamou por novas harmonizações e nessa toada bem portuguesa, este díspar e singular duo se despediu, com ovação em pé por parte do público. Foi só o tempo de mudar a “água às azeitonas” e na nossa frente os “Gaiteiros de Zido” (Vinhais). Três gaitas e uma delas tocada por um jovem de doze anos, duas caixas e um bombo, fizeram alusão a alguns gaiteiros antigos e da tradição da gaita de foles em Vinhais.

Foi o tempo de beber um fino e voltámos à Casa da Cultura, para a apresentação do livro “O Semeador de Palavras”, editado pela “Associação José Afonso”. A jovem Mafalda, introduziu esta apresentação, onde a sua guitarra portuguesa, a solo, não esqueceu os “Verdes Anos” de Carlos Paredes.

Direitos Reservados

Dois dos associados, João Nuno Marques e Paulo Esperança, conduziram uma apresentação muito interessante, onde explicaram de forma sucinta, algumas passagens da vida de Zeca. A ligação entre José Afonso e José Mário Branco da qual resultou esse grande disco “Maio Maduro Maio”, Estúdio Herouville (França) de 11 de outubro a 4 de novembro de 1971.

Astúrias e Escócia

Chegou a vez, das Astúrias “invadirem” o palco! Um dos melhores gaiteiros da vizinha Espanha – Ruben Alba, não deixou os seus créditos por conta alheia…Tocou e bem! Não consegui discernir bem o papel do trompete, naquele contexto musical…

E como já é de tenência e costumeira, o melhor ficou reservado para o fim, ou seja para os “Astro Bloc” da Escócia. A sonoridade dos dois violinos encantou toda a gente e “obrigou” à dança, às rodas de mãos dadas e aos comboios de gente que se foram formando.

Uma última e primeira palavra para o portentoso e excelso da organização que Mário Correia, há muitos anos nos tem obsequiado e mimoseado! Quem mais sabe sobre música tradicional em Portugal e que é professor na Universidade de Salamanca! Com diversos livros publicados! Sendim, ficará sempre em débito e défice, para o homem que  o colocou  no mapa nacional e internacional.

Direitos Reservados

Não podemos encerrar este artigo sem nos pronunciarmos pelo excelente som e desenho de luz que a empresa de Pedro Barbosa nos proporcionou-  exemplar, de um rigor e intransigente profissionalismo e grande qualidade.

Os abraços, as despedidas e, para o ano, cá estaremos!