20. Um anjo na terra

Esta semana não vos falo de tratamentos. Não houve quimioterapia, era a semana de pausa, a de respirar fundo até à próxima quinta-feira, e há algo de essencial nesta caminhada. Que não podia deixar de falar, que é a minha mulher.

Há batalhas que se travam longe dos olhares. No silêncio do quarto. No cansaço acumulado ao fim de um dia de trabalho. Na repetição de gestos que ninguém aplaude. Ela chega cansada e, ainda assim, chega inteira. Prepara os tratamentos, organiza os comprimidos, cuida da pele ferida, insiste quando eu desisto por minutos. “Anda lá.” E nesse simples “anda lá” cabe mais do que incentivo: cabe amor.

Desde 2018 que vivemos neste compasso incerto. Anos de hospitais, de salas de espera, de relatórios médicos, de dias bons e dias quase impossíveis. E ela nunca arredou pé. Há uma coragem discreta em quem cuida. Não é a coragem que faz barulho. É a que fica. A que segura. A que trata das feridas e do medo ao mesmo tempo.

Às vezes sou eu que quero deixar estar. Que me canso antes do corpo. E ela tem a paciência de me puxar de volta. Não com dureza, mas com ternura. Há pessoas que nos acompanham. E há pessoas que nos sustentam. Ela sustenta-me.

Fala-se muito de superação, de força interior, de resiliência. Mas raramente se fala do que torna tudo isso possível: alguém ao nosso lado, constante, fiel ao compromisso feito nos dias fáceis e nos dias que doem. Ter um anjo na terra não é uma metáfora bonita é ter alguém que escolhe ficar quando tudo pesa.

Este texto é um agradecimento. Porque sem ela este caminho não seria possível. E se há algo que aprendi nesta travessia é isto: ninguém vence sozinho. Há sempre uma mão invisível a segurar-nos.

Se tiverem essa mão na vossa vida, cuidem dela. Reconheçam-na. Digam-lhe.
Porque há anjos que não têm asas. Têm paciência. E amor.